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A ALEGRIA DE SANTO ANTÔNIO

         Carlos Gaspar*               01.09.1991

Em 1948, ainda se completar nove anos de idade, vindos de norar por algum tempo na praça de Santaninha, fixamos resid^ncia na rua de Santo Antônio, cujo nome já constava nas placas indicativas como Tre. Mário Carpentier. A nossa casa, de morada inteira verde, recém-reformada, ficava em frente ao sobrado dos Viveiros, como era chamado, onde funciona a Escola de Música do Maranhão, que teve seu apogeu, poucos anos passados, e agora parece abandonada.

 

Aos domingos e dias santos a missa era obrigatória e nenhum de nós tinha o direito de justificar eventual falha, uma vez que as celebrações iam sucessivamente, e hora em hora, entre quatro e meia a oito e meia da manhã. Eram, portanto, cinco oportunidades para cumprirmos com o nosso dever de católicos. De casa para a Igreja ficava perto, quadra e meia apenas e mais a travessia do largo, que também de Santo Antônio já havia passado para praça Antônio obo, por decisão do legislativo municipal.

 

Ao lado e contíguo à Igreja – só ela ainda homenageando o santo – o prédio do antigo Convento, depois Seminário, ajudando a compor um conjunto arquitetônico de realce. Hoje aquela casa qe forjou a formação religiosa, moral e intelectual de quantos a frequentaram tem o nome de Centro de Formação de Líderes. O Seminário desapareceu dali, deixando na nossa lembrança o vai e vem dos padrecos – assim eram apelidados os seminaristas – vestidos em suas batinas de cor preta, entrando e saindo, da Igreja para o Seminário e vice-versa, através de um corredor interno de comunicação entre os dois prédios. Também não escapavam à curiosidade e aos comentarios da vizinhança, todas as vezes que se deslocavam, de um modo geral, rumo à Igreja da Sé para alguma solenidade, em fila dupla, chefiados por um padre responsável, às vezes até o próprio Reitor. No cortejo, alguns clérigos, marcados pelo sinal da tonsra que hoje caiu em desuso, se distinguiam dentre os colegas menores e sinalizavam aos populares a aproximação da ordenação sacerdotal.

 

Com o passar do tempo, vê-se claramente que Sato Antônio foi perdendo sua importância, restando apenas a Igreja com seu nome, a esquecida Igreja de Santo Antônio, que só agora volta à evidência, pela polêmica travada em razão da pintura ocre com que está sendo revestida. Com certeza absolita, não vou entrar nessa discussão na qual intelectuais, e até mesmo o bispo, já se manifestaram e que, é bom frisar, tem tido grande repercussão e merecido destaque especial da imprensa e comentários do povo. O debate sobre qualquer assunto é sempre salutar, pois ele, regra geral, traz consigo inúmeros esclarecimentos e até desdobramentos do assunto. Com certeza é o que agora está acontecendo em razão da nova vestimenta a ser usada pela Igreja e pelo antigo Seminário, para receber o Papa. Contudo, estou convicto de quem deve andar mesmo muito contente é Santo Antônio, ultimamente lembrado quase que somente pelas moças casadoiras, através de novenas e trezenas bastantes concorridas. Imagino a alegria do santo, que em nossa cidade foi demais festejado e já possui um grande império, representado pelo largo, pela Igreja e pelo Seminário. Hoje, despojado das honrarias e do esplendor do seu reino estava, até então, humildemente relegado e recolhido à velha igreja onde Vieira pregou, sem que ninguém mais dele falasse, a não ser os poucos interessados e as muitas interesseiras. Tomaram-lhe todas as homenagens, a começar pela substituição do nome da rua, de Santo Antônio por Tte. Mário Carpentier, este, ilustre desconhecido da maioria da nossa população, em que pese se alinhar entre os heróis de Copacabana e por isso mesmo um dos protagonistas do episódio dos “18 do Forte”, início do ciclo de revoltas tenentistas que culminaram na Revolução de 1930. O largo, bem em frente à igreja, outrora batizado com o mesmo nome do taumaturgo de Lisboa, passou a ser designado de Praça Antônio Lobo. É possível até que a Câmara Municipal tivesse desejado prestar homenagem ao Antônio de Lisboa e de Pádua, já que ambos são um só, e também a Antônio Francisco Leal Lobo, pois no fim das contas Antônio tanto serve para lembrar o santo, quanto eternizar um dos mais ilustres intelectuais de nossa terra, que morou e veio a falecer em um sobrado localizado naquele logradouro público.

 

A rua que ladeia o antigo convento, depois Seminário, e que fica entre esse prédio e o da Escola Modelo Benedito Leite, tem o nome de Pe. Antônio Vieira, o que constitui uma interessante coincidência. De Lisboa como Santo Antônio, nasceu também Vieira, que deixou célebre, entre muitos outros, o famoso sermão dos peixes por criticar, já naquele tempo, os que vieram para se aproveitar das riquezas e da gente da terra, assim como os tiranos e maus administradores. Antônio, o santo de Lisboa e de Pádua, e Antônio Vieira o padre, que, nos idos do século XVII, conviveram sob o mesmo teto, aquele em forma de imagem e este ainda vivo e de verbo, se tornaram grandes amigos, assim continuando até hoje e é bem possível que, espiritualmente, o padre haja visitado, todos os dias, o velho templo, para conversar com o santo, incentivando-lhe a não perder a esperança de que um dia voltaria a ser lembrado pela cidade inteira, como outrora, qualquer que fosse o motivo. Agora, com o destaque dado novamente ao Santo e à Igreja, o taumaturgo, com certeza, foi mesmo Antônio, não  de Pádua ou de Lisboa, mas Antônio Vieira, desta vez.             

 

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