Carlos Gaspar* 10.05.1992
Apressadamente, li em um dos periódicos locais que a Academia Maranhense de Letras inicia, nesta semana, uma vasta programação cultural a partir do lançamento do livro “Buli-Buli”, de autoria do ilustre escritor Ubiratan Teixeira, que assim marca seu ingresso na literatura infantil. Pelas datas dos eventos elencados, constatei de pronto a impossibilidade de comparecer a qualquer deles, em razão de minha ausência compulsória da nossa cidade. Contudo, não vou me dispensar de, posteriormente, logo ao meu regresso, conviver, por alguns momentos, com a beleza, os encantos e os sonhos, que embalam a alma de toda criança e julgo contidos na produção do imortal Ubiratan.
Ainda sobre as atividades da Casa de Antonio Lobo, foi divulgado que, sem demora, será reeditado o livro “O Cativeiro”, do raramente lembrado conterrâneo João Dunshee de Abranches Moura, cujo nome, colocado injustificadamente no esquecimento, é pouco conhecido das contemporâneas gerações. Aliás, ninguém pode esconder que a administração do intelectual Jomar Moraes, à frente da Academia, tem se revelado das mais profícuas de que se tem noticia. A reimpressão de obras escassas, tal como a aqui referida, é um projeto que vem sendo perseguido com determinação e se reveste de suma importância, motivado por ter como objetivo autores relegados e produções esgotadas, ambos desconhecidos do público em geral, com exceção daquelas pessoas que se dedicam às letras, por vocação, prazer ou dever de ofício.
Publicado em 1941, no Rio de Janeiro, “O Cativeiro” foi escrito em 1938 com a finalidade precípua, segundo nos relata seu próprio autor, de comemorar o cinquentenário da abolição da escravatura e o centenário da Balaiada, a cuja guerra intestina, ocorrida no nosso Estado, consagra ele um dos capítulos do compêndio. Longe de ser unicamente simples registro de memórias, que talvez fosse a intenção maior de Dunshee de Abranches, trata-se, com certeza absoluta, de profundo trabalho de sociologia política da época, com enfoque maior para a problemática do negro, notadamente durante a fase da escravidão.
Sem perder de vista o cotidiano da São Luís do seu tempo, demonstrado nas descrições dos logradouros existentes e no detalhe dos hábitos da população, politiqueira e mexeriqueira como até hoje, através de linguagem simples e elegante, o escritor estravasa sua paixão árdua pela liberdade do seu semelhante originário do continente africano e externa de forma patente o reconhecimento do significado desse povo na formação cultural da sociedade maranhense. O horror à servidão e a tudo aquilo que ela proporcionou para deformar o relacionamento humano, com reflexos até aos dias de hoje e ao amanhã imprevisível, são manifestados com precisão. E neste aspecto, não ficou alheio ao tema do preconceito racial, tão latente, no mundo inteiro da atualidade. Parecia até que o mestre Dunshee de Abranches estava antevendo o deprimente espetáculo apresentado pelos norte americanos, exibido a todo o universo, em que brancos e negros, mais uma vez, fizeram eclodir recalques escondidos, secularmente, que nem a educação, o civismo e o amor à pátria comum conseguiram reprimir. Como se não bastassem os conflitos da África do Sul, contraditoriamente condenados pelos Estados Unidos, desta feita é este mesmo país que expõe a fragilidade da nação, desunida pelos seus sentimentos opostos.
A sociedade brasileira, não há como negar, também é portadora do mal do preconceito racial, mas esperamos sempre poder testemunhar que o colonizador português não guardou no recôndito de sua alma o ódio por quem sempre colaborou na sua epopéia de desbravador de terras existentes “além de mares nunca dantes navegados”. Aqui, brancos e negros, após a lei da libertação, se depararam presos por laços comuns, de afeto e de carinho, cultivados mesmo no convívio desigual. O exemplo que nos deixa agora o povo norte-americano, sirva antes para refletirmos sobre nossa condição de gente branca, preta, parda ou “tisnada” na busca constante da unidade de sentimentos, para glória do país.
Assim “O Cativeiro” vem bem a calhar, especialmente se considerarmos que vivemos todos, no Brasil, sem distinção, instantes intermináveis de opressão. Terminada a coação política, ao escaparmos da ditadura militar, entramos na violência econômica, com salários baixos, fome, desemprego, miséria, e criminalidade sem falar na desassistência generalizada. Já não é somente o cativeiro de uma raça, mas dc um povo inteiro, unido pelo ideal da nacionalidade, independentemente dos seus caracteres étnicos, que precisa ser redimido, com urgente rapidez. Vale a pena, desta forma, ao ser reeditado, ler e interpretar a obra de João Dunshee de Abranches Moura sob duplo enfoque, ambos vivenciados modernamente, a um só tempo: o da sociedade escravocrata e o da sociedade escravizada.