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                                                          Carlos Gaspar*                          18.08.1991

Em Brasília  a explosão do narcotráfico ganha  dimensões imprevisíveis. Até mesmo uma CPI já foi constituída para apurar tudo, a partir das origens. Parece haver uma preocupação incomum na correta condução para que seja  alcançado um final verdadeiro, com a punição dos culpados. É  interesse o próprio Congresso Nacional, como instituição, uma vez que  o envolvimento de um ou alguns de seus membros na questão agrava profundamente a já cambaleante  redibilidade do Poder Legislativo. No  fundo  sabe-se que o narcotráfico  está ligado também à corrupção. Os dois andam juntos e é preciso evitar que amanhã ele cresça, no meio dos congressistas, sob pena de vermos ameaçada as maiores expressões do regime  democrático, em âmbito nacional: a Câmara e Senado.

Também de Brasília o Presidente Collor dispara forte contra os empresários, culpando-os pela aceleração da inflação,  que já tinha sido prevista por economistas e leigos. Não cabe mais  entrar no mérito ou no questionamento dessa transferência de responsabilidades, que sempre o governo procura fazer todas as vezes que não consegue cumprir sua parte. Afinal, só o poder central pode causar inflação, a níveis constantes,  como a que estamos vivendo. Contudo, o mais surpreendente, neste episódio, após Mário Amato, Presidente da FIESP, ter mantido  inteira discrição ou mesmo  indiferença quanto ao blá-blá-blá  do Presiente da República, foi a manifestação  imediata do maior empresário brasileiro, Antonio Ermínio de Moraes, sugerindo a criação, por parte do governo federal, de uma secretaria danticorrupção. “O mal que realmente nos aflinge de maneira profunda é a corrupção”, desabafou o presidente do grupo Votorantim. Na verdade estas palavras servem para espelhar que campeia nas hostes da administração federal ou com beneplácito dela, o enriquecimento ilícito  de uns poucos, em detrimento da sociedade brasileira. Os empresários não podem pagar mais esta conta, a pior de todas, qual seja a de levar a pecha de aproveitadores, quando os seus resultados operacionais, demonstrados nos balanços contábeis e fiscais, conduzem a empresa nacional aos mais baixos índices  de rentabilidade. E se a empresa não ganha o correspondente aos seus investimentos ela jamais poderá crescer, reinvestindo e empregando. Ninguém deve ter vergonha o lucro justo e honesto, resultado do trabalho e do capital, aliados harmonicamente. Vergonha deve-se ter da corrupção que domina desordenadamente,  a tal ponto que um homem do quilate de Antônio Ermínio de Moraes teve de reagir publicamente, ao menos com o intuito de fazer silenciar o Presidente da República.

No Maranhão, a polêmica maior girou em torno do segundo  pedido    consecutivo, num espaço de aproximadamente  sessenta dias, que o  Tribunal de Contas dos Municípios dirigiu ao governador, sobre intervenção municipal, desta feita em Anapurus. E o que mais chamou a atenção dos que acompanharam as diversas manifestações e comentários, alguns publicados diariamente na imprensa,  foi que há muitos defensores da corrupção. Alguém chegou até a comentar que se  aquela Corte de fiscalização apertar mesmo o cerco sobre as  Prefeituras, poucas escaparão, razão porque, segundo  o defensor desta tese, todas as contas deverão ter parecer favorável de aprovação. Aderir a este pensamento não parece ser o mais correto, porque, afinal, os Preifeitos foram eleitos para administrar o dinheiro do povo e não para dilapidá-lo. E parece mesmo que a população vai se dando conta da importância e da consciência dos seus direitos, a julgar pelo que  aconteceu no município de Estreito, segundo noticiou uma das  estações de TV local. Naquela comuna, foi o próprio povo, em abaixo-assinado dirigido à Câmara de Vereadores, quem pediu a  cassação do prefeito, por malversação dos  recursos públicos, dentre outras acusações. É possíve1 que quando este caso chegar  ao Tribunal de Contas dos Municípios, já  esteja completamente resolvido. Assim, esta instituição não mais seria acusada de pedir a punição de corruptos, principalmente se o exemplo de Estreitos se  disseminasse por todo o Estado. Para os que não sabem convém esclarecer que as prestações de contas dos Prefeitos são encaminhadas aos mais diversos setores técnicos (Contabilidade, Auditoria,  Procuradoria  e  Ministério Público), onde, após analisados, são oferecidas oportunidades à parte interessada,  para  complementar ou esclarecer este ou aquele assunto. Com os pareceres mencionados e o voto justificado e por escrito do Conselheiro Relator é que elas vão à reunião plena do Tribunal  onde são apreciadas. O  procidimento, além de oferecer a mais ampla oportunidade de defesa ao gestor público, salvo melhor juízo, é eminentemente técnico, desprovido, portanto, de  qualquer  paixão política ou interesse escuso. Nunca ninguém ouviu algum comentário em desabono à honrabilidade de qualquer dos conselheiros do Tribunal de Contas  dos Municipios, o qual, em dez anos de existência, prova agora que foram alcançados níveis de  intolerância no trato do patrimônio público, uma vez que são recentes ou esparsos seus raros pedidos de intervenção. E com certeza absoluta o governador do Estado e a Assembléia Legislativa se unem às  comedidas decisões do Tribunal de  Contas dos Municipios, na mais  pura demonstração de suas reconhecidas probidades e na defesa do interesse do povo, de que os srs. Deputados e o Sr. Governador são autênticos sentinelas.

Para tristeza geral, a corrupção foi o assunto dominante no país,        envergonhando a República e o povo brasileiro, mas o Maranhão, através dos poderes constituídos e da vigilância popular m auxilio, não pestaneja em combatê-lo com rigor para o orgulho de sua gente miúde representada por Rafael Duailibe Leitão, que haverá sempre de se ufanar das gerações que lhe ajudaram a formar sua personalidade  proba.

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