Carlos Gaspar* 01.03.1992
Tive notícia de que a “cólera” se alastra pela regiãoda Baixada Maranhense. Em Matinha, mais de trinta casos comprovados, além das mortes inesperadamente provocadas pela epidemia. Tomei um susto grande. Admiti que logo Viana será acometida, se éque já não a foi. A preocupação aumentou, ao cair em mim, imaginando inúmeros conterrâneos, relegados à desassistência e ao desamparo, com suas vidas prematuramente ceifadas.
Sou muito emotivo. Fujo de determinadas circunstâncias, em defesa própria. Às vezes, no entanto, traído pela saudade e mesmo enfrentando as reações que possa sentir, recomponho a aventuro reviver certas passagens da minha vida pregressa. Se isto me pode produzir efeitos perigosos à saúde, de outro lado me recompensa pelo prazer que experimento, repassando episódios de antigamente.
Há muito que não ia a Viana. De lávim com pouco mais de cinco anos de idade. Voltei quando garoto adolescente, para gozar deliciosas e memoráveis férias escolares na fazenda do meu inesquecível avô materno. Ví os carros de boi transportando cana-de-açúcar e ouço ainda o rangido pachorrento de suas rodas. Seis, oito, dez juntas de boi na manjarra, fazendo funcionar o velho engenho símbolo de um passado pujante da economia do Maranhão. A garapa. O açúcar bruto, hoje chamado mascavo. A alambicada. O trabalho duro, durante a semana inteira. Todos cansados, homens e animais. Sem cólera e sem “cólera”. O alento era a certeza da missa dominical, na igreja Matriz. Ou os festejos religiosos, de São Sebastião, de São Benedito ou de Nossa Senhora da Conceição, conforme a época. Este último, o mais imprtante. Trata-se da padroeira da cidade.
Passei alguns anos sem rever a minha terra. E lá retornei jáhomem, casado e de filha, para mostrá-la à família. Depois, muitas vezes, a negócios, cobrando, pagando, comprando ou vendendo. Sempre a saudade no meu encalço.saudade de tudo. Do sobradãoem que nasci, da curimatá assada na brasa que nem as espinhas exageradas em quantidade conseguem sobrepor-se ao seu paladar, da beleza dos campos e dos lagos que rodeiam e banham a cidade. O destino então me afastou, novamente, por longo período, das minhas origens. Contribuiu, além das obrigações que assumi, a viagem penosa feita de lancha, ou de meter medo, num teco-teco. Mais tarde, a estrada de terra, estreita, lamacenta e perigosa. Mesmo assim, um verdadeiro milagre, em termos de comunicação.finalmente, oasfalto. Aí ficou perto. De São Luís, pouco mais de duas horas, de carro. Mas, então, o tempo já ia longe. Alguns anos decorridos que não via minha cidade, embora dela nunca me esquecesse.as nossas ligações sentimentais são indissolúveis.
Não faz muito, menos de um lustre, apertou-me a alma. Era dezembro. Decidi, então, desafiando as emoções, voltar para assistir à missa da Conceição. Oito de dezembro. Parti às cinco horas da manhã, dirigindo um automóvel.imaginava chegar às sete e meia, para a solenidade religiosa das oito. E assim fui, entre entusiasmado e cauteloso comigo mesmo. O coração começou a bater mais forte, ao chegar na cidade. Atravessei o bairro da Barreirinha e entrei pela rua Grande. A casa que tinha sido do meu avô não era como d’antes. A fachada havia mudado. O cemitério, bem pertinho, largado, desprezado, como se os seus moradores nada mais representassem para ninguém. Mas lá estava eu para uma prece pela alma do pai da minha mãe, um dos homens que aprendi a gostar, aolongo da vida e cuja imagem continua a ser uma constante no meu dia a dia.
Pois bem, continuei pela rua principal, rumo à igreja. Poucas pessoas sáidas de casa. Um bom dia aqui, outro acolá. Não ví meninos exibindo as costumeiras fardas de gala dos seus colégios, nem crianças vestidas de anjinhos. Nada indicava um dia de festas, a maior delas, de outrora. Mesmo assim, ainda esperançoso, prossegui rumo à matriz. Ali sim, veria a praça enfeitada de bandeirolas, barracas armadas para os populars leilões, doceiras com seus tabuleiros de bolos e guloseimas variadas. E me recordei até que deveria entrar logo na igreja, antes de começar a missa. No tempo do Pe. Manoel Arouche, os homens ficavam na frente, nos primeiros bancos, e as mulheres atrás, para evitar que os olhos masculinos se enchessem da malícia na casa de Deus. Apressei a velocidade do carro. Dobrei no canto de Ozimo Carvalho, velho farmacêutico e amigoda família. Na outra esquina, já entrando na praça, ocorreu-me ter visto, na última vez em que alí estive, o sr. Raimundinho, ou melhor, o sr. Raimundinho Roberto dos Santos, homem preto por fora e branco por dentro como se dizia popularmente, para enaltecer-lhe o comportamento impecável.
De repente deparei-me com a praça, a igreja aofundo,ladeada pelo palácio do bispo. Nem sinal de festa. Tudo abandonado e silene. Levantei os olhos, aind na tentativa de ver e ouvir o badalar dos sinos, chamando os fiéis.nada. decepcionado fui até a porta do templo, onde encontrei dos homens, limpando os bancos, todos espalhados no adro para serem mais tarde recolocados dentro. Perguntei a hora da missa e um deles respondeu: 10 horas, hora de Deus e não de Sarney. Estávamos na vigência do decreto presidencial estabelcendo o horário de verão. Cabisbaixo agradeci, adentrei, fiz minhas orações e tornei ao meu carro, de volta a São Luís, desapontado a até pensando, fazendo mesmo propósito, nunca mais retornar a Viana. Esta, de hoje, não é a do meu tempo, que prefiro guardar na lembrança eternamente.
Ao chegar a “cólera”, prevista, com bastante antecedência, mas sem que o Estado tivesse se preparado para combatê-la. Já que os homens não podem ou não querem dar jeito nas vidas dos seus irmãos, volto atrás e até faço uma promessa. É a Nossa Senhora da Conceição que por certo irá operar o milagre da proteção dos seus filhos. No dia oito de dezembro próximo, se Deus quiser, na sua igreja estarei, em horário de Deus ou de Collor, para testemunhar a minha fé no seu poder contra a “cólera”, a ganância e a maldade dos homens.