Carlos Gaspar* 25.09.1994
Sou partidário de que frequentemente se realizem eleições no país. Afinal, o exercício do voto termina por aprimorar e fortalecer as instituições políticas. Não que as vigentes estejam fracas, mas é salutar testá-las a cada instante. Somente assim elas adquirem mais consistência e a cidadania passa a ser realmente um direito a ser aplicado sem medos ou receios.
Contudo, acho este mil e novecentos e noventa e quatro de alguma maneira conturbado. Acumularam-se, na mesma quadra, os processos de escolha das chefias dos executivos estadual e federal, e de senadores e deputados à câmara e às assembléias. Para uma população meio analfabeta e muito carente, o sagrado direito de definir qualquer dos seus representantes passa a a ser um quebra-cabeças demoníaco e o resultado pode não coincidir com real desejo da maioria.
De qualquer forma, antes essa abundância, repleta de falhas e defeitos, do que a escassez. Por esta já passamos e não acredito que haja alguém com saudades do tempo em que os governaores eram impostos de cima para baixo, os senadores nomeados e o critério de seleçao dos portadores de mandato nascia eivado de vícios. Entendo que hoje se vive uma fase bem mais democrática, embora se esteja ainda longe do ideal.
Apenas para que se possa avaliar quanto proveitosa tem sido a atual disputa eleitoral, basta recordar que tnto o PSDB quanto o PT já aubstituíram os seus candidatos à Vice-Presidência da República, ambos acusados de envolvimento não recomendáveis. Também, por motivos semelhantes, renunciou o postulante à Presidência da República, pelo Partido Libertador.
E para engrossar o elenco de episódios relevantes no aprimoramento das instituições e da cidadania, agora foi a vez do senador Humberto Lucena,que busca sua reeleição pela Paraíba, ora ocupando a presidência do Senado da República e do Congresso Nacional, ver cassada a sua candidatura. O Tribunal Superior Eleitoral, sabiamente, assim procedeu em razão de o aludido parlamentar ter feito uso de recursos públicos em benefício pessoal, com fins eleitorais. Não cabe agora entrar no mérito ou no aprofundamento do assunto,mas a verdade é que a deliberação daquela Corte deJustiça vem estabelecer um marco no comportamento dos membros da Câmara Alta do país, quanto à aplicação e ao aproveitamento do dinheiro do povo em vantagem própria. Se se tratava de uma prática habitual, em vigência há muitos anos, não restam dúvidas de que a partir d’agora ela dificilmente subsistirá.
Estamos vindo de longe. Desde o “impeachment” de Collor, passando pela CPI do Orçamento, com cassação de mandatos ou não, até os fatos recentes aqui mencionados. Isto é a prova de crescimento, de evolução, de conscientização dos deveres e direitos pessoais. Aos poucos os privilégios vão cedendo e caindo ante as alterações da sociedade prejudicada. Lembre-se que os parlamentares estão a dever ao país uma revisão na questão das imunidades, de cujo instituto se prevalecem para cometer ilícitos os mais variados.
Mas, como ia dizendo no início, o voto é que vai nos conduzir a um estágio de sublimação democrática. Para isso, contudo, é indispensável a cooperação de cada um, quanto ao emprego correto desta ferramenta. Aos meus colegas empresários, por exemplo, eu lembro que devem discutir e analisar com seus auxiliares os candidatos postulantes a este ou aquele cargo. Este debate, se bem orientado, terminará por esclarecer que o voto é tão importante e que somente através dele se podeoperar transformações; que nada deverá comprar a consciência cívica do cidadão, pois os favores pessoais não podem impedir a concretização dos anseios de uma melhor representação política. Estou convencido de que discussão este nível, dentro das empresas, onde seus membros têm interesses comuns, é absolutamente eficaz, trazendo saldos positivos, inclusive no relacionamento interno.
O provo precisa ser politizado, a fim de que possua condições de optar com mais segurança. E ao empresário de visão cabe a incumbência de concorrer para que isto se efetive com maior rapidez já chega de deixar este assunto sério servir de cantinela enganosa de políticos demagogos e inescrupulosos.