Carlos Gaspar* 28.02.1993
A minha mania pelos velhos está ganhando maior amplitude.
Sempre experimentei um prazer imenso, uma alegria incomum em conversar com os mais idosos. Comentavam até, ainda era jovem, que eu estava envelhecendo cedo, tal o meu feitio de pensar, fruto natural do contato habitual com pessoas pertencentes a outras gerações. E não me arrependo desse jeito de ser, pois aprendi bastante com quem, já calejado da vida, podia transmitir suas lições.
Acontece que dei asas a esse meu gosto e hoje vivo a remexer livros velhos, amarelados, cheios de mofo, bichos e fungos, embora arcando com o aguçamento de um processo alérgico incurável, que culmina por me obstruir as narinas, sem contar o mal estar causado pela sequência de incontáveis e incontroláveis espirros.
É bem provável ou até mesmo certo que, em razão de tal pendor, haja chegado às minhas mãos, através de um amigo, contemporâneo da Faculdade de Direito, um livro raro sobre o Maranhão da fase da ditadura Vargas. O mencionado compêndio, denominado “A Semana de Getúlio Vargas no Maranhão” é comemorativo ao aniversário do caudilho, ocorrido em 19 de abril de 1941 e ele contém uma série de substanciosos discursos e pronunciamentos proferidos por pessoas de destaque no mundo eclesiástico, intelectual, social e político da ocasião. De igual maneira, em complementação aos festejos da efeméride, acham-se alí registradas importantes inaugurações de obras realizadas pelo então interventor Paulo Martins de Souza Ramos, dentre elas o Palácio da Educação.
Do professor Nascimento de Moraes, de saudosa memória, que ainda conheci quando rapazinho, não perdia de ler as crônicas por ele subscritas sob o pseudônimo de Braz Sereno, no vespertino “Pacotilha — O Globo”, na década de cinqüenta. E é exatamente dele que encontro, na preciosa coletânea, um fascinante artigo, onde nos aponta com sua sabedoria, que duas forças poderosas atuam sobre o homem: a herança e a educação. “A primeira é o passado, refletindo-se no presente, e a segunda é o presente, refletindo-se no futuro”, orientava o inesquecívelmestre.
Pois bem, atordoado com esse jogo de influências e interação entre passado, presente e futuro, foi que, automaticamente, me fixei numa fotografia, também inserida no livro, do prédio denominado Palácio da Educação, edificado no Parque Urbano Santos, para abrigar e funcionar a Diretoria Geral da Instrução Pública, bem como os estabelecimentos oficiais de ensino secundário, no caso, o Liceu e a Escola Normal.
Quis o destino que não fosse eu um liceista, pois do Colégio Marista, do qual me desliguei em 1953, fui para o de São Luis, com o objetivo de concluir, no ano seguinte, meu curso ginasial. O fato, porém, não impediu que eu tivesse tido com os estudantes daquele colégio público, uma boa relação de amizade, alicerçada e alimentada à sombra dos frondozos outizeiros da Praça do Quartel, local de reunião para o trama das diabruras sadias, ao encerramento das aulas ou ao “espeto” de algumas delas. É que, com a mudança para a Quinta do Barão, o novo Colégio Marista e o Liceu terminaram por ficar bem próximos um do outro, permitindo aos seus freqüentadores um agradável convívio, desetimulante dos antagonismos naturais advindos das disputas esportivas, ou das paradas cívicas em homenagem ao cinco de setembro.
E maior era a minha satisfação, como de tantos outros colegas, quando devíamos comparecer à sala de aula pela tarde, embora para cumprir alguma obrigação extraordinária ou castigo imposto. É que, na ida ou na vinda do Colégio Marista, transitava eu pelo Largo do Quartel ou Campo d’Ourique, por onde também passavam, ao início e ao fim das aulas, as orgulhosas normalistas, “vestidas de azul e branco”, desfilando com seu charme inconfundível e portando o vaidoso garbo de futuras professoras. Na tormentosa timidez insuperável não consegui, ao contrário de inúmeros companheiros, namorar nenhuma delas, já que me faltava coragem para qualquer abordagem, por mais singela que fosse. Não obstante, sentia incontida euforia, com o coração a palpitar mais acelerado, em ver caminharem à minha frente, de uniforme e meias compridas, moças encantadoras e casadoiras até.
Agora, que tantos anos já se foram, estamos, mais uma vez, no período de volta às aulas. Eu então me apercebo que o Liceu e a Escola Normal já não são mais aqueles e nem tampouco o velho Colégio Maranhense. Aliás, a cidade se transformou, assim como todo o Largo do Quartel, em que não há mais espaço para o vai e vem insinuante das normalistas nem para as brincadeiras próprias dos estudantes da época.
Mas, retornando à solenidade de abertura das portas do Palácio da Educação, dela consta, no valioso exemplar, de correta feitura tipográfica, uma belíssima oração o aluno Dalton Rodrigues da Silva, ao se referir ao seu inesquecível colégio: “Será, entretanto, sempre o Liceu, aquele mesmo ‘Licêo’ do diretor Sotéro dos Reis, de antanho, o Liceu da Rua Formosa e do antigo Convento das Mercês, o Liceu dos luminares das letras maranhenses”. Será mesmo? Velho sim, o prédio, que talvez por isso mesmo goste eu tanto dele, na minha boa sina de consentir atuar em mim, com toda a plenitude, a força da herança, que nada mais é que o passado, refletindo-se no presente, ao sabor da lição de Braz Sereno.