Carlos Gaspar* 07.11.1993
Tenho consciência nas tendências que abraço. Verdadeiro reflexo da minha personalidade. Delas, jamais me afasto, salvo se, no transcorrer da militância, verificar que cometo um equívoco. Aí sim, procurarei reexaminar a postura que adoto, para não persistir em em eventual engano. E se assim o concluir, certamente, com a coragem de que sou possuidor, terei a franqueza e a determinação, sem qualquer receio, de alterar o curso da minha vida ideológica.
Os atuais episódios políticos não se restringem somente a Brasília. E nem unicamente a figuras desvinculadas de nossa terra. Embora seja lastimável, o atual contexto atinge e vai alcançar amanhã, amplitudes muito mais largas. Isto é preciso. É fundamental para a estabilidade sócio-econômica da Nação. O povo já não acredita nos seus representantes, tantas as notícias espalhadas aqui e ali. Faz-se, então, mister tudo esclarecer. Sem nada faltar. Basta de engodo. De falsos líderes, que enriquecem e custeiam suas campanhas com dinheiro do contribuinte. O Maranhão, através de suas autênticas representações, tem o dever de se posicionar.
É difícil compreender os motivos pelos quais alguns políticos insistem em eximir-se da CPI da Corrupção (esta designação parece mais abrangente e realista). O pretexto de que ela é restrita ao Orçamento da República contém, no seu bojo, a decisão clara e sofismada do acobertamente de práticas não condizentes com a ética. Aliás, esta tese, que enseja granhar corpo, ante a inexistência de uma vigilância ininterrupta, não prevaleceu no caso Collor de Mello. E nem poderia vingar, pois foi através da CPI do PC que se descobriram os caminhos da confirmação do envolvimento do então presidente, em ações desabonadoras. Aqui, na atual CPI, evidentemente, o exemplo terá de ser palmilhado, a coerência é condição indispensável, para evitar-se o descrédito do trabalho e das pessoas que o executam. Nada de passionalismos. Nem de corporativismos.
A chance que se nos apresenta é única. Rara. Imprescindível ao restabelecimento do clima de harmonia entre a Nação e o Estado. Alguém tem de ficar atento, com vistas a que ela não seja desvirtuada. Para impedir-se a criação de compartimentos estanques. O novelo de linha, como se costuma dizer, precisa ser desenleado. Até ao fim. Até a outra ponta, objetivando a que as duas, a do começo e a do térmio, se encontrem e fechem o círculo. Interromper esse desmaranhamento significa colaborar com a dissimulação de atos, no mínimo indígnos, e, salvo melhor juízo, compete à CPI ir a fundo em tudo. Gaste o tempo que gastar. Ninguém deve ter pressa. O essencial é produzir-se um resultado correto e justo. Punindo os culpados e lavando a honra dos levianamente acusados.
Alimento esperança, ainda, de que a classe política volte a merecer o apoio e a confiança da população. Mas para isso é imperativo que ela mesma, despida de resistência, se submeta, sem hesitação, medo ou dificuldades de qualquer ordem, ao julgamento decorrente da transparência de suas atitudes pretéritas e presentes. Unicamente assim tenderá a se revigorar a função do Estado, que é manter a ordem e o progresso. Hoje estamos todos em desordem. E o progresso só chega a poucos, e de modo rápido, desenfreado e desonesto. Assim, a ampliação das investigações deve ser considerada como indispensável.
De longe venho afirmando que o Brasil necessita de uma revolução. Todavia entendo que essa revolução, quase impossóvel de ocorrer de baixo para cima, necessariamente se originará da classes dominantes. Afinal, é absolutamente inquestionável a tese de que a sociedade brasileira tem percorrido um rumo, que é fruto da conciliação de suas elites. Fica bem claro, então, que essas mesmas elites é que terão de promover a revolução, as mudanças, as tranformações clamadas e reclamadas continuamente. E a oportunidade para materializar a idéia é exatamente esta que passamos. Daí porque não poderá ela ser perdida. Complementarmente, a sociedade organizada, através dos seus diversos segmentos, carece de abrir os olhos, despertar e exercer o seu poder de pressão. Se for o caso, ir às ruas, às praças. De cara pintada ou vestida de branco. Conclamar o povo e encurralar os responsáveis pelo destino do País, no sentido de se identificar e punir os políticos que prosperaram no campo material, ilicitamente. No Maranhão, obviamente há muitos, que sempre viveram de ordenados ou subsídios e se metamorfosearam, de repente, em fortes empresários, detentores de fortunas incalculáveis. Cada um a sua vez, mas sem interrupção. Estou convencido de que além de se estabelecer o império da Justiça, serão eliminados os muitos ralos, ou melhor, os agora visíveis ralos do dinheiro público, causadores superlativos da malvada inflação e da miséria de trinta e cinco milhões de brasileiros, enquanto os privilegiados gozam e desdenham do povo sofrido e dos homens que trabalham com honestidade.
Pessoalmente, possuo amigos em todos os lados. Sou solidário, até provar em contrário, com aqueles que julgo inocentes, ao mesmo tempo em que lamento e sofro pelos que caíram na tentação. Enquanto isso, minhas posições políticas e ideológicas permanecem intocáveis, com fidelidade ao meu partido, à minha cabeça, à minha consciência e sem paixões. Se estiver errado, como disse no começo, mudarei. Sem temor e com dignidade. Com a mesma cara que sempre tive.