Carlos Gaspar* 16.05.1993
O governo Itamar Franco ia ter o seu quarto ministro da Fazenda, em poucos meses. Eliseu Resende, alvo de incriminações não desfeitas, se encontrava na marca do pênalti. A partir de quando o presidente da República avocou a si o processo de financiamento ao Peru, de obra a ser realizada pela Construtora Nordeste Odebrecht, ficou bem nítido que o titular da pasta da Economia deixara de desfrutar da confiança do seu chefe.
Os dias foram decorrendo, dando a entender-se que o ritual de fritura, comum nestes casos, culminasse com o pedido de exoneração do ministro. Este, no entanto, segurou firme, agarrado à função, como se defendesse o que é seu. Coisa alguma o induziu a uma atitude coerente com a circunstância em que se viu envolvido.
Imaginou-se que o Senado seria o calvário de Eliseu Resende. Nada. Quando lá chegou, já estava novamente ungido. É que preparou ele, através dos seus amigos, uma série de manifestações de prestígio, de modo a defrontar-se com o parlamento já com relevantes apoios construídos, vindos de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Deve-se admitir que a classe empresarial mais retrógrada tenha se prestado para instrumentar esse desserviço ao país. Afinal de contas, o ministro sempre foi acusado de estar á disposição dos propósitos menos legítimos na área econômica, de que se tem notícia no Brasil.
Vale a pena lembrar que a própria nomeação do substituto de Paulo Haddad gerou enorme perplexidade, a partir dos políticos. A sustentação congressual ao presidente da República quase foi retirada. Não obstante, na ocasião, falou mais alto a conveniência nacional, que se traduziu retornando à equipe ministerial e ao seu chefe a credibilidade, então colocada em dúvida com o inesperado convite a Eliseu Resende.
Agora, mais uma vez está em “xeque” a honorabilidade de quem já entrou com pequena aceitação. E não havia mais adequada oportunidade para ser reparada a precipitação em que incorreu Itamar Franco quando da indicação do titular da Fazenda, pedindo-lhe de volta o cargo. Não o fez. Por que?
É muito difícil responder corretamente. Quem ocupa um lugar de chefia ou comando, certamente recebe inúmeras pressões. A Presidência da República, com todo o seu poder, não está imune a isto. Os interesses são tão fortes e se faziam presentes, como neste episódio, a ponto de serem levantadas suspeitas sobre a honestidade de um homem como Itamar Franco. Se isto até nem justifica nada, no mínimo é uma explicação a ser refletida. E aquele velho adágio, de que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, aqui se aplica inteiramente. O presidente, mesmo com o presidencialismo recentemente aprovado através do plebiscito, não mandou. Ou não pode. Eliseu continuou na cadeira.
Este fato não é para ser visto de maneira isolada. Em si, abre a caixa preta dos vergonhosos financiamentos a empreiteiras (Mendes Júnior, Andrade Gutierrez, Norberto Odebrecht, etc.) para obras em outros países, com risco exclusivo para o Brasil. Em Angola, foram 500 milhões de dólares. No Iraque, mais tantos. E daí por diante. Sua análise deve ser procedida num contexto mais amplo para que se tenha uma dimensão bem exata das consequências a produzir. A primeira delas que se afigura, é o falecimento definitivo do já “natimorto” plano da economia, anunciado à nação no dia vinte e quatro de abril pretérito. Aliás, já não se cogita da tão propalada iniciativa, divulgada em memorável manhã de um sábado. Acredita-se até serem raras as pessoas que ainda recordam do elenco das medidas nele incluídas, objetivando declinar a inflação, deflagar a marcha do desenvolvimento e atenuar os problemas sociais.
Tudo conduz a concluir que, a esta altura dos acontecimentos, a Câmara nem examine os projetos de lei encaminhados, visando à estabilização econômica do País. Até do tal IPMF, de onde brotarão recursos para atender a uma série de ações, ninguém trata. A imprensa ficou muda, como sinal de que nas casas legislativas estes mecanismos pararam. Mesmo sob o risco de equívoco, infere-se, em razão das narrações aqui seqüênciadas, que o Governo Itamar Franco agoniza. Lamentavelmente ferido de morte. O presidente não teve forças para despedir o seu mais graduado ministro, mas é bem provável que, por causa disso, ele, o presidente, já esteja dispensado.
Pelos ares, sem rumo ou tutela, a reforma constitucional esperada para outubro próximo. Aguardava-se, aqui, uma atuação fortíssima do presidente, restaurando para seu sucessor a questionada governabilidade do País, amarrada em alguns exageros da Carta Magna. Sem respaldo popular e distante das bases parlamentares, não parece incrível que venhamos a ter possibilidades de corrigir os desencontros com a modernidade, contidos na Constituição de 1988. É uma pena verem-se frustradas as esperanças de um povo que tem passado por tanto sofrimento e vexame, justo no momento em que o ato do “impeachment” devolveu aos brasileiros a crença num futuro melhor.