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                                                           Carlos Gaspar*                       02.10.94

Três de outubro pasosu a ser histórico, digno de comemoração, no calendário nacional. Provavelmente, dos que vão às urnas nessa data, poucos se recordam dos motivos que levaram as autoridades a fixar esse dia a realização de eleições no país.

É bom lembrar, de fato, se trata de festejar a Revolução de 1930, iniciada no Rio Grande do Sul, com armas, havendo imediatamente se estendido por Minas Gerais e Estados do Norte e do Nordeste, adesistas de vanguarda da insurreição.

Não desejo aqui fazer um estudo sócio-econômico para fundamentar as causas de uma das principais, senão a maior revolta, de cunho territorialmente mais abrangente que se verificou em nossa terra. Ao tentar analisar este aspecto, em minúcias, teria de ir buscar desde a política dos anos vinte, a do “café com leite”, às condições internacionais da época a partir da Primeira Guerra e suas repercussões no Brasil, até a fundação do Partido Comunista do Brasil, em 1922, sem deixar de abordar o fenômeno politico-militar denominado “Tenentismo”. E, em seguida, forçosamente desceria a detalhes acerca do levante do Forte de Copacabana, da rebelião de 1924 eclodida em São Paulo, e da célebre Coluna Prestes.

Também está fora dos meus propósitos discorrer sobre as razões da formação da Aliança Liberal, uma vez que ela em momento algum adquiriu contornos de um partido político, firmando-se apenas em reivindicações de vários grupos desvinculados do setor cafeeiro; não foi ela, dessa maneira, um ajuntamento revolucionário, no sentido exato do termo, e sim um forte instrumento de pressão. O Brasil de então precisava avançar, inquieto que se mantinha desde o estabelecimento a República, que era saudada pela população esperançosa e iludida com os discursos empolgantes e demagógicos, como a solução completa detodos os problemas do campo e da ciade, da economia e da política.

Claro que na frente do cenário a ocasião está destacada a disputa pelo poder, isto é, o processo negociado na transmissão do poder entre elites idênticas. A eleição era previamente definida. Ocusto – e aí apeleja interna – era acertar a indicação do novo dirigente. Isto feito, praticamente estava sacramentado o resultado nas urnas, conseqüência da manipulação com objetivos a enquadrar os arranjos preestabelecidos. Lógico que já naquela altura, com o crescimento das cidades e a politicação dos cidadãos, este costumefoi se tornando mais difícil. Mas, na verdade, a neutralização a essenovo estado e espírito cívico era feita através de acionamento, dos “currais” eleitorais subordinados aos chefes políticos do interior, os autoritários “coronéis”, de nós conhecidos até os dias de hoje. Nas regiões do Norte e do Nordeste brasileiro este quadro se fazia bem mais acentuado e permanece nítido ainda neste momento, devido a uma série de arrazoados que não cabe agora apreciar. Dentre eles, basta mencionar que aontinua a campear o analfabetismo, instituição alimentada pelos atuais “coronéis” com o escopo de manter desinformado e é cada vez miserável um imenso contingente eleitoral.

Pois bem, no fundo mesmo, a Revolução de 1930, trazia consigo o ideal das grandes transformações. Getúlio Vargas, um dos seus chefes, ao inflamar os rebeldes sob suas ordens, afirmou: “o povo está se levantando para readquirir a liberdade, para restaurar a pureza do regime republicano, para a reconstrução nacional”. Reis Perdigão, maranhense ilustre, e participante ativo o movimento, além de ser um dos seus chefes civís, em conferência que pronunciou denominada “A Revolução de 1930 no Maranhão”, não teve reservas em assim se expressar: “A farsa democrática funcionava, desse modo, sob a égide dos coronéis todo poderosos, que dominavam a vida municipal”. E continuou: “Foi contra a permanência dessa intolerável situação política que o provo brasileiro de levantou em armas naquele outubro de 1930”... Adiante, referindo-se à propagada sublevação nacional,questiona: “Teráela cumprido seus propósitos?”

Acredito que a resposta a esta pergunta não se encontra unicamente nos livros. Estáno sentimento de cada um. Eu, particularmente, conquanto tenha achado de valia os ideais revolucionários, entendo que a frustração, decorrente da instalação do Estado Novo, foi prevalente. Ao implantar o regime de excessão, o próprio Getúlio Vargas contradiz a exortação feita, e que acabei de citar, quando detonava a marcha sobre o Rio de Janeiro.

O Brasil de hoje não é igual ao de 1930, mesmo tendo guardado, apesar do tempo e de tudo, muitos vícios ainda não extirpados. O “coronelismo” é um deles, embora com roupagem diferente, bem ao sabor da modernidade e da tecnologia de ponta. Contudo, fica bem evidente que já não há justificativas para o uso de armas de fogo nem de luta fraticida, visando operar transformações, por mais importantes que sejam. Os meios são outros e mais eficazes. Por isso, sem dúvida alguma, amanhã, 3 de outubro de 1994, vamos repetir, civicamente, o feito de 1930, através do voto livre e consciente, para modificar o Brasil e o Maranhão.   

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