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                                                           Carlos Gaspar*                       08.12.96

Os executivos das grandes empresas, principalmente estes, viajam sempre com pastas nas mãos. Elas devem guardar, além de alguns objetos de uso individual e pro­fissional, documentos confidenciais. E qualquer que seja sua cor ou tamanho, despertam logo a atenção de inúmeras pessoas.

Da mesma maneira, nos escritórios de grandes empresas, notadamente naqueles onde são tomadas relevantes decisões, também existem pastas ocultando pa­péis, por serem, em geral, estritamente reservados. Segredos que poucos podem saber. Ficam circunscritos a um grupo pequeno, de absoluta confiança e respon­sabilidade, integrante dos quadros da or­ganização.

E é tão preciosa uma pasta, que o caso daquela, da cor de rosa, ocupou o noticiá­rio nacional meses inteiros, movimentan­do o país e oportunizando discussões sem término. Nela haviam provas reveladoras relativas aos inconfensáveis bastidores da vida política nacional e, por isso, foram ameaçados de punição os que divulgas­sem o conteúdo. Misteriosa era ela, que acabou mesmo sendo um enigma, pois sumiu num passe de mágica.

Pois bem, assim como outras pessoas, possuo também uma pasta. Graças a Deus é preta. Todavia, diferente de suas simila­res. Com a vantagem de não tê-la compra­do. Herdei-a de meu pai e, por isso, ad­quiriu a conotação de relíquia, razão pela qual cerco-a de carinho e cuidados. Ela traduz, quando em minhas mãos e aos meus olhos, um traço de união entre nós dois, tanto face ao que ali está inserto, quanto pelas recordações de alguns epi­sódios dos quais fomos saudosamente partícipes. Lamentavelmente, ele, agora, do lado de lá, e eu, ainda, do lado de cá. Mas o certo é que esta pasta preta, que neste instante se acha sobre a mesa em que me debruço para ler e escrever, ter­mina por me transportar para um dos bons períodos de minha vida. Talvez, por isso, aliada ao fato de haver sido de alguém muito caro para mim, é que costumo conservá-la, escondê-la, para tirá-la da ga­veta trancada à chave, em ocasiões de ex­trema necessidade. Impelido a mandar limpar o móvel onde trabalho, não tive como deixá-la no seu lugar.

Na verdade, esqueci-me de explicar, não se trata de uma pasta ou algo neste gênero, mas de uma bolsa preta, de plás­tico, brilhosa e bastante simples. O “ri-ri”, conquanto seja dos antigos, parece recente, como se o vai-e-vem a que se submeteu durante anos, não o houvesse levado a um estado de depreciação.

Assim, ao abrir a bolsa, deparei, na repetição de semelhantes oportunidades, __________________________________, que iam de pequenos apontamentos a exemplares de selos aplicados, outrora, em­ recibos, papéis, e no “Diário”, sujeitos à fiscalização federal.

Uma das coisas que mais me comove­ram foi constatar, novamente, a precaução de meu pai, nas anotações pormeno­rizadas e precisas, e nos controles acerca de suas disponibilidades e gastos finan­ceiros como se, em algum momento, ti­vesse de prestar contas a alguém. Assim é que nela está, bem acomodado, intacto, há quase cinquenta anos, datado de 1948, um pequeno livro “Caixa”,em que ele lan­çou, com detalhes, as despesas que efe­tuou com a reforma da casa, onde viveu até à morte, e na qual, basicamente, criou todos os filhos.

Isto significa que a morada-inteira da rua de Santo Antônio, além do valor afetivo cultivado ao longo do século de­baixo de seu teto, tinha também um custo monetário, fruto do seu suor e do mourejar cotidiano, que o marcou para sempre. Afinal, foi o primeiro imóvel por ele comprado, aqui em São Luís.

Ali, também, mamãe despediu-se des­te mundo e a partir dessa data a casa fi­cou mais vazia e triste. Porém ele, de lá não se retirou. Procurou ocupar os espa­ços que sobraram, embora tivesse consci­ência de que seu poder de aglutinação jamais supriria o de sua mulher. Ainda as­sim, perseguiu tal intento e, diria, em parte o alcançou. Quanto ao resto das ho­ras disponíveis, pelo esvaziamento do lar, para preenchê-las, agarrou-se, prendeu-se na solidão, deixando que esta se avolumasse, crecesse, até se transformar em irremediável sofrimento.

Avalio, agora, que seus motivos eram fortes, para negar-se, ante aos inúmeros convites dos filhos, a mudar-se de sua re­sidência. Há de se convir que cinco déca­das não são iguais a um dia, e sim a um longo período. O suficiente para se tornar uma combinação, uma associação indissolúvel, de si mesmo com o que cons­truiu na ordem material e sentimental. Acho que, ao aproximar-se o outono da existência, aquele último fator, o insulamento, se sobrelevou de forma irreversível.

Vou retornar, ao abrigo da bolsa, as coi­sas que encontrei e examinei, para revê­las mais tarde. Amanhã, talvez. Em tudo ali conservado esta a figura de papal. É como se o estivesse vendo. E gosto de que essa sua imagem se repita com frequência, pois até hoje não canso de admirar o jeitão, o modo de ser do “velho”. Sem qualquer pasta cor-de-rosa, mas com uma bolsa preta, de plástico, teimosa em resistir às estações do rempo, e repleta de tesouro incalculável, ele só faz causar orgulho a seus filhos, pelo pai que tiveram. Estas as heranças maiores que dele recebi. A bolsa e o orgulho por ele.

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