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Carlos Gaspar*                                 31.03.96

Na devolução imaginária do tempo, sinto o sabor inesquecível do João-­boIão, do quintal de tia Rakima; da carambola, do pomar de D. Camélia Viveiros; do ingá, comprado no mercado central; da maria-pretinha, oferecida nas ruas da cidade em cofinhos ou latas de querosene; e da lima doce, vendida na feira da Praia Grande, trazida de terras distantes nos porões dos batéis, depois de superarem as ondas ameaçadoras da Baía de São Marcos. Além destas, tantas outras não menos deliciosas entraram para o rol das raridades da fruticultura maranhense.

Ainda sou da época do café da manhã, almoço e jantar, intercalados por merendas entre nove ou dez e quinze e dezesseis horas. As frutas, no entanto, tinham seu momento apropria­do. Desconheço o motivo, mas geral­mente constavam com mais freqüência do carciápio matutino. Pela tarde, a praxe era o café com leite, bem quentinho. Aquele, no bule, abrigado no tradicional “abafador”, para conservar a temperatura; e o segundo, era posto sobre a mesa em uma leiteira de louça, mostrando a nata amarelada e gordurosa. Tudo acompanhado de apetitosas bolachinhas, besuntadas com manteiga “Real”.

Dada a minha origem, tive assim o privilégio de viver as coincidências e as desigualdades de hábitos alimentares entre uma cidade do interior e a capital do Estado, onde aportei, na companhia de meus familiares, em busca de um futuro promissor. Devagar, porém, incorporei esses novos costumes, quase sem perceber, e em detrimento daqueles contidos na minha bagagem gastronômica, oriunda da terra berço. O peixe d’água doce, por exemplo, cedeu lugar ao d’água salgada; a tarira sêca, ao bacalhau; o capão, à carne de boi. E por aí a coisa seguiu seu curso normal.

Evidentemente, com as frutas o mesmo se verificou. A banana, talvez pelo preço barato, adquirida aos cachos, terminou alcançando supremacia sobre as demais. A laranja, exageradamente ácida, e a tangerina azeda, à época de grandes safras, eram suas competidoras. Enquanto isso, a tanja, servindo de carga aos barcos partidos de Morros, depois de romper o mar bravio até São José de Ribamar, e em seguida suportar os solavancos da estrada piçarrada ligando esta vila balneária a São Luís, terminava inacessível ao bolso raso.

E assim vivenciei, às vezes sem atentar, essas mudanças, ora para melhor, ora para pior, mas próprias do desenvolvimento, e também vinculadas à capacidade aquisitiva de cada um. Nesse contexto, dei, inesperadamente, com a maçã. Essas ocorrências vieram independentemente da minha vontade. Não fora isso e somente mais tarde, alguns anos depois, poderia ter condições de, com acerto, julgar os motivos do pecado de Adão. Fui, no entanto, um felizardo, cuja oportunida­de me surgiu cedo, em face de episó­dios alheios a mim e à própria maçã.

Uma viagem para o Rio de Janeiro, por aqueles anos, quase sempre era feita a negócio ou por doença relativamente séria. Daí a conclusão óbvia de ser ela privilégio de uns poucos ou necessidade de uns tantos. Meu pai, pequeno comerciante recém-estabelecido aqui, de repente achou-se na contingência compulsória de se deslocar para a então capital federal. Com minguados cruzeiros, optou por fazer o vôo em um daqueles aviões que tinham os bancos corridos em sentido vertical, bem ao contrário da disposição interna das aeronaves modernas da ocasião. O fundamental para ele estava no custo da passagem. Quanto ao resto, o importante era chegar vivo ao destino e retornar com resultados positivos da missão.

Pois bem, as razões desse deslocamento de surpresa para o Rio de Janeiro foram causados por uma dessas imprevidências do governo do país. É que existia um órgão federal, denominado COFAP - embrião da atual SUNAB -, teoricarnente encarregada de abastecimento e produção, especialmente a agrícola. Na falta de arroz ou feijão, por exemplo, visando a evitar escassez e conseqüente carestia, o remédio era confiscar, um ou outro, pertencesse a quem quer que fosse. E assim aconteceu, exatamente com um lote de arroz, remetido pela firma do pai, para ser vendido no Rio, o maior mercado consumidor da famosa gramínea maranhense, jocosamente apelidada de franckstein, dado o seu mau aspecto. Não restava outra alternativa ao proprietário, salvo a de procurar receber o valor, geralmente injusto, pela mercadoria que lhe pertencera.

Na verdade, nem sei mais se meu “velho” voltou com a carteira cheia ou até mais vazia. A minha lembrança continua fixada no seu regresso à casa, ansiosamente esperado por mamãe. Todavia é mais plausível haver ele conseguido reaver uma boa soma, conquanto parcial, mas com rapidez superior às suas expectativas. E isso, ao refletir presentemente, deduzo, recapitulando os fatos, ter ele trazido consigo uma caixa contendo maçãs. Provavelmente das mais em conta, pois ele nunca foi afeito a extravagâncias ou gastos exagerados. Afinal, tinha absoluta consciência dos parcos recursos a seu alcance, face a numerosa família de cujo encargo era responsável.

Embora já vencido o primeiro lustro dos cinqüenta, ainda guardo comigo, repleto de alegria e saudade, esse quadro interessante. Parece que vislumbro o pai, saltando do carro de praça e, junto com a mala surrada, vinha uma caixa de madeira, mais se assemelhando a um gradeado, com uns papéis azuis ocupando as brechas deixadas pelas tábuas de pinho. E o cheiro inebriante das maçãs vermelhinhas, que antes nunca tinha visto e nem provado, para sentir o sabor excepcional que mexeram com minhas glândulas salivares produzindo-me água na boca, até bem pouco.

Hoje, ao passar pelas ruas, quantidades incontáveis de maçãs são agora oferecidas a granel, por valor muito mais razoável que o de outrora, a quem desejar adquirí-las. Não obstante, a minha fascinação esgueirou-­se. O entusiasmo desapareceu, antes, levado pelos anos que se foram. Sem dúvida, prefiro, agora, degustar no imaginário a jacama, a ata, a tanja, a banana, seja ela roxa, comprida, três quinas, anã ou das diversas variedades escondidas no meu esquecimento. Tão difíceis de serem encontradas nos dias atuais, penso que elas correspondem no paladar das crianças e dos jovens d’ágora, àquilo que, naqueles idos, representou para mim a maçã.

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