Carlos Gaspar
02.07.95
Há dias em que a emoção tem predominância no emaranhado de ações individuais, acontecimentos, comuns ou surpreendentes, que se desenvolvem do amanhecer ao entardecer. Por acaso, hoje é um desses para mim, agitado que fiquei em meus sentimentos, ao receber uma carta de uma velha parenta, residente no Rio de Janeiro, desde algumas décadas corridas. Dizia-me ela, demonstrando o espírito em ebulição, que revivera, a cada página do meu livro “Catedral de Emoções”, inesquecíveis e saudosos momentos de infância, que passara em Viana, meu berço de nascimento.
Tão de perto, igualmente, me tocou o conteúdo da dita correspondência, que já a li, atentamente, por seguidas vezes, na esperança de conter a saudade que, como transpareceu a minha prima distante, impulsiona mais forte o coração de quem nunca relegou a segundo plano a bem-querença pela sua terra natal. E na proporção em que repito a leitura, mais me vejo engasgado, com um nó na garganta e a me impedir a fala, enquanto os olhos umedecidos fazem rolar sobre meu rosto um filete incontido de água com sabor de sal.
E agora, estravasando parte daquilo que se acha escondido no mais íntimo de meu ser, trago à luz episódios e passagens que imaginei haver o tempo se encarregado de aplicar. Desse modo, revejo-me, na “varandinha” de onde aprendi admirar, desde a mais tenra idade, cenas lindas e exuberantes, produzidas sob os auspícios prodigiosos da natureza e impossíveis de serem imitadas pelo mais talentoso dos artistas, no manejo de seu pincel. No verão, os campos infindáveis a se perderem no horizonte, tingidos por um verde repleto de entretom, correndo na busca do lago longínquo, para um encontro quase confidencial, testemunhado somente pelos bandos de garças assanhadas, em que ambos se acariciam e se experimentam, tal duas pessoas na exteriorização de um afeto espontâneo. No inverno, ao contrário, as águas crescendo com o cair das chuvas freqüentes iam tomando dos campos, que aos poucos diminuíam de tamanho, até desaparecerem por completo. E só com o estiar da estação chuvosa, somente com a seca, o lago volumoso e amplo vai cedendo, para que surjam, novamente, as primeiras gramíneas viçosas, anunciando o restabelecimento da paisagem primitiva.
Este espetáculo, de rara beleza na sua total vastidão, somente apreciou na perspectiva que a altitude proporciona, quem viveu, morou se hospedou ou visitou constantemente o antigo sobradão de azulejos amarelos, situado a uma esquina do famoso “Canto Grande”, um dos pontos mais importantes de Viana, naqueles idos de trinta, quarenta e até cinqüenta. No velho casarão funcionou, em seus baixos, a conhecida fábrica “Santa Maria”, de pilar arroz e descaroçar algodão. O piso de cima, como de hábito, servia de residência da família de quem administrava o negócio. E foi precisamente ali que vim ao mundo, já no décimo mês de gravidez de minha mãe, por privilégio que a bondade de Deus me concedeu, para ser um dos guardiões, no recôndito do espírito, da paisagem em mutação constante, que os olhos inocentes de menino gravaram e arquivaram para todo o sempre, do alto da “varandinha”.
Aquela dependência superior do prédio, ficava exatamente em seus fundos, bem no final de um comprido corredor, ladeado de quartos e cozinha, que a ligava à sala principal. Aos poucos, antes pelo hábito que por explicação indispensável, percebi ser ela o mais agradável recinto da casa, onde todos se reuniam com freqüência para as refeições, para a conversa, para o lazer ou, no mínimo, para descortinar, no além, a aproximação alvissareira de uma lancha, vinda de São Luís. Além do mais, dali divisava-se, quase sem concorrência com outro lugar ou ponto da cidade, um dos espetáculos mais formosos e cheios de riqueza natural, de quantos existem na Baixada Maranhense. Certamente são esses os motivos pelos quais jamais consegui esquecer a “varandinha”, cuja lembrança procuro adormecer, mas em mim se repete, tanto pelo quadro ecológico que diariamente, renovado se introduzia e fixava na retina de meus olhos, quanto pelas brincadeiras e pelo aconchego então experimentados, ao sabor da fauna e da flora em festa renovada.
Agora, dou graças ao Pai por ter permitido chegar às minhas mãos a carta que carinhosamente Flora, a parenta a que me referi no começo, me remeteu, revivendo Viana e os ensinamentos forjados na meninice ali passada, em companhia de seu tio e de meu pai. É que o sobradão de azulejos doirados, com suas largas calçadas de pedra de cantaria, atualmente relegado ao abandono da própria sorte, não passa de um amontoado de ruínas, transformado em fantasma, a perseguir, pela vida inteira, os que conduzem na mente e na alma, o seu significado indelével, com amor imorredouro, alimentado e fortalecido, em tempos que não voltam mais.