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                                Carlos Gaspar*                                    08.10.95

Tenho dito a várias pessoas e já deixei transparecer em uma de minhas crônicas que venho cul­tivando, naturalmente, sem a menor estratégia preestabelecida, uma grande afinidade ou sintonia com a solidão. Parece até inexplicável, logo eu que, ao lon­go da vida, fui sempre cercado de muita gente, a partir da casa de meus pais, alegre e barulhen­ta, fruto da convivência de seus treze filhos.

Nunca imaginei que agora, quando caminho na trilha declinante da existência, iria me envolver por um sentimento des­ses. Tenho feito especulações para ver se encontro as causas, as razões, os motivos de tal esta­do de espírito. Francamente, nada parece justificar meu comporta­mento, que chega a adquirir, em determinadas circunstâncias, a sensação de deleite.

Este, por acaso, é um momen­to assim. Após uma conversa ale­gre e afetuosa com minha mu­lher e minha filha, tranquei-me no gabinete de trabalho para dar amplitude à ansiedade do pensa­mento e da reflexão, embalados pelo ruído do vento que soprava sem cessar. Até pela televisão me desinteressei, limitando-me, quando coincide, aos horários dos jornais, visando atualizar-me com os principais aconteci­mentos locais e nacionais.

Perdi a hora de dormir, nesta minhã introspecção. De onde estou, aprecio o céu limpo, en­feitado de estrelas e sinto o frio agradável desta brisa de outubro que torna São Luís mais gostosa de que já é em qualquer época. E o verão, ainda na sua pujança, varrendo célere para o final de novembro, quando deverá dar os primeiros sinais de debanda­da, no prenúncio da estação invernosa.

Corre-me à lembrança que a esta altura os campos estão sendo preparados para o plantio. Plantio nem sei de quê. Antiga­mente era de milho e, principal­mente, de arroz. Depois, tudo foi se acabando. As terras abando­nadas e a miséria grassando. Cadê a Emater, a distribuição de sementes e o projeto do algodão em que nunca acreditei? Nem se ouve comentar. De que adiantam os rios, os vales úmidos, as chu­vas regulares, se é precária a coordenação e a assistência? Es­tas coisas, já vêm de uns anos para cá e o governo que desejar colocá-las em ordem, terá muito o que fazer. E é preciso, do contrário as cidades continuarão a inchar, ressentidas de estrutura suficiente para acolher quem a elas se dirigir, na premência de um ganho qualquer do modo a enganar o estômago.

Nesses últimos dias os manda­chuvas do país têm falado em demasia sobre reforma agrária. Mas eu acho que eles pouco compreendem o significado des­sas duas palavras. Ou simulam não entender. Haja vista a dife­rença entre o discurso e a práti­ca. Sinalizam que tudo se resu­me apenas em desapropriar, às vezes beneficiando este ou aque­le, glebas de terra e dividí-las em lotes para doar a um montão de gente, em ato público, na tenta­tiva de render mais votos. E se sabe que essa é a etapa mais fácil. O difícil, tem ficado por realizar. Consiste no ensino, na orientação do homem, no funci­onamento dos equipamentos comunitários adequados, no cré­dito e em uma série de outras ações objetivando fixar o ho­mem no seu habitat, evitando-se o crescimento de correntes mi­gratórias tangidas pelo sofrimen­to, na sofreguidão de urna opor­tunidade para sobreviver.

Nascido na Baixada, recordo-me dos campos amarelados e dos lagos sempre mais distantes, como se estes estivessem fugin­do, cedendo lugar à expansão daqueles. Também das roças, das queimadas, das coivaras e das pessoas alquebradas pelo labor incessante e pelo sol a consumir-­lhes, implacavelmente, o rosto enrugado. O gado, além de ma­gro, já começa a morrer em consequência da seca.

No sertão, pelo que sei, o pa­decer não é menor. Vale aaíir­mação de Euclides da Cunha de que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. E precisa ser de fato duro e corajoso, para enfrentar as intempéries da região. Ainda assim, ele não consegue escapar às marcas do padecimento. Quem bem descreve esta fase do ano, é o nosso Coelho Neto, no seu livro “Sertão”: “O sol ardia desde outubro, com o furor inclemente de um castigo...” “Ventos áridos abrazavam como o hálito da na­tureza em febre”. E por aí segue o escritor maranhense, ora relatan­do o aspecto dos animais magros e extenuados, ora se referindo ao cheiro forte e acre das quei­madas.

O     Maranhão é, desse modo, formado de regiões contrastantes, todas potencialmente ricas, mas clamando por aproveitamento. Ninguém consegue extrair leite de pedra. É fundamental eleger-se uma política agrária dirigida para a produção. Pelo menos, dar a partida neste ano. E prosseguir, nos seguintes, com a prioridade vol­tada para o meio rural, onde está o futuro deste estado e através do qual se deverá obter o menor desequilíbrio social possível.

Novamente, embevecido pela áurea do firmamento na impo­nência de sua beleza ressaltada com a escuridão, parei de escre­ver por algum tempo. Retomo novamente a redação. Nesse es­paço, observei, ao que pude, o mundo circundante, enquanto a noite envelhecia e as horas se rendiam, semelhante a sentine­las mudas guardando o corpo de alguém, estirado em um esquife. Já é alta a madrugada e me pergun­to porque ainda permaneço acorda­do, alimentando esta clausura. Sem resposta, releio o que escrevi e percebo então a distinção entre esta minha solidão prazeirosa e o ísolamento do homem do cam­po, desamparado e maltratado.

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