Arquivo

                                                 Carlos Gaspar*                                 01.10.95

Passei mais de vinte dias ausente do país. Necessitava de recarregar as baterias, há muito exauridas pelo excesso de demanda. Ainda assim, a inércia, o indiferentismo a tudo, tão normal nessas ocasiões, não prevaleceu ante à dinâmica de meu espírito de observação. Aqui e alí encontrava com freqüência o que ver e admirar, simultaneamente estabelecendo comparações com as coisas de minha terra.

Durante todo o período da viagem, sem que eu propositadamente quisesse, me conduzi dessa maneira. E de tal forma que, conquanto mantivesse comigo o panorama da realidade brasileira, dele me preservava. Vivi, devras, um clima repousante com as tomadas, contraditoriamente, ligadas e desligadas neste nosso país, mas perfeitamente conectadas na corrente energética nas nações por onde andei.

Longe de mim a intenção de marcar o leitor com um relato acerca da peregrinação gostosa que fiz pelos Estados Unidos e Canadá. Relatar as vantagens de lá já não se traduz em novidade para quase ninguém. Talvez as de cá, sim, sejam, para muitos, como para mim foram, olhando pelo lado de fora, a maior descoberta.

Bem, vou entrar de vez no assunto que pretendo. É com relação aos preços dos mais diversos bens, naquele mercado da América do Norte, muito mais baratos que os praticados no Brasil. A surpresa cresce quando se confronta o padrão de vida e, consequentemente os salários vigentes. Ninguém desconhece que a remuneração paga ao trabalhador é um dos ítens fundamentais na composição de custo de serviços ou produtos. Logo, se o salário alcança um patamar muitas e muitas vezes superior ao nosso, como ocorre nos Estados Unidos, seria naturalmente compreensível que tudo, ou quase tudo, lá, fosse, igualmente mais dispendioso que no Brasil.

O que se verifica, no entanto, é exatamente o oposto. Aqui a renda individual é bem mais baixa, entretanto as mercadorias ou serviços são ofertados a preços salgadíssimos, a ponto de se tornarem inacessíveis. Esclarecer essa incoerência, salvo equívoco meu, compete aos economistas. A grosso modo, e, logicamente, em decorrência de minhas limitações, trata-se de algo inexplicável, ou melhor, sem justificativa. Sim, porque para tudo existe uma explicação, embora nem sempre, como neste caso, seja convincente.

Para quem ainda não teve oportunidade de constatar, dou exemplos reais. Comprei quatro calças de brim, de excelente qualidade, por noventa e cinco reais, aproximadamente. Depois fiquei arrependido, porque em outra loja pagaria por idênticas roupas em torno de oitenta e cinco reais. Um vidro de perfume francês (nem sei o valor daqui) ia de sete (promoção) a cinqüenta reais, conforme a marca ou tamanho do frasco. Em matéria de vestuário feminino, nem é bom falar. Acho que qualquer mulher teria vontade de encher malas inteiras. A alimentação constitui um outro item à parte, pois, de todos, é o mais surpreendente. Come-se o que desejar e por quanto puder desembolsar, dependendo do lugar escolhido. Mas não é preciso procurar um restaurante excessivamente modesto, nem tampouco luxuoso para se conseguir um jantar, incluindo-se refrigerante e às vezes até um copo de vinho, por quinze ou vinte reais. E, sabendo-se escolher bem, essa refeição pode constar do camarão e até lagosta. É de dar inveja e desapontamento aos maranhenses, que se iludem com a propalação de possuírem o mais saboroso camarão do mundo.

Porém o meu propósito vai além de mero cotejamento de preços. Gostaria de abordar os fatores dessas disparidades. Aparentemente (ou verdadeiramente?) gtemos um custo menor (salário + matéria-prima + insumos) mas praticamos um dos preços mais elevados do planeta. Por que? Os impostos são habitualmente apontados como responsáveis. Mas será isso correto, se a carga tributária nacional corresponde a 31% do PIB, portanto menos que a dos Estados Unidos (31,4%), do japão (33,1%) e da Europa (42,7%)? Os juros, sim, face à política monetária do governo, terminam influindo fortemente, pois são os mais exorbitantes de que se tem notícia em todos os tempos. E por aí, a seguir essa linha de raciocínio, se iria elencar de cinco a dez itens, sem uma conclusão satisfatória, mas sempre elegendo os políticos e o governo como vilões desse compasso.

Na minha análise fria, vejo que há razões em todos os lados. Contudo, quase nã se cita provavelmente um dos mais relevantes de todos os motivos: a ineficiência. Percebo que aí está a fenda, da qual somente alguns empresários se dão conta, porque uma boa maioria insiste em permanecer despreparada para a profissão que exerce ou, então, por ainda se achar alentada pela ciranda financeira considerada interminável. Em face disso, muitos sao aqueles que continuam mantendo margens de lucro altíssimas, especialmente os dos setores mais oligopolizados. E aqui sim, o gobverno deveria jogar pesado contra quem insiste em  se posicionar como aproveitador.

O plano de estabilização financeira, mais lembrado como Plano Real, está ainda no começo. Muita água terá de rolar, para lavar toda a sujeira causadora dessas divergências injustificáveis. É ter paciência e esperar. Mas, sem dúvida, na medida em que a economia brasileira mais estiver inserida no contexto inevitável da globalização, a eficiência terá de prevalecer. Ou, então, quem persistir nos métodos superados, por certo sossobrará. Quando chegarmos a essa situação, as disparidades de preços, hoje tão chocantes e geradoras de distorções, já estarão em níveis perfeitamente aceitáveis. O governo precisa se ajustar, mas o empresário também.    

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Scroll to Top