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                                                                                                            06.11.94

                                                                     Carlos Gaspar*

O plano real está atravessando sua fase mais crítica. Bombardeios surgem de todos os frontes, como se o país vivesse dividido na guerra deflagrada contra a inflação. E o pior, por incrível que pareça, é que essa discórdia existe mesmo. Diariamente se assiste a disparos de um lado e de outro, isto é, dos que são a favor e dos que são contra a inflação. Por causa dela, muitos brasileiros já tombaram, outros se encontram mutilados e um sem número passa por situação absolutamente miserável, em decorrência da insuficiência de víveres para a subsistência, de casa para abrigo, de remédio para a cura dos ferimentos, enquanto, paralelamente, uns tantos que escapam aparentemente ilesos, vão se constituindo em um peso morto, pois o sistema educacional, nesse contexto, não tem como funcionar.

O pólo da resistência está capitaneado, neste momento, pelo ministro Ciro Gomes. Éo terceiro comandante do Plano, visto que o primeiro afastou-se da pasta para concorrer à presidência da república; o segundo, embaixador de boa cepa, comedido e competente, capitulou ante eventual armadilha dos adversários. Salvo melhor juízo,  a escolha do ex-governador do Ceará, detentor do maior índice de aprovação pública de que se tem notícia, para substituir o Ministro Rubens Ricupero, veio na hora exata. O homem estava talhado e preparado para a titularidade da economia, mormente na circunstância transitória, quando os ataques estão mais acirrados.

A linguagem do Dr. Ciro Gomes, pelo visto, desagrada a uma boa parte de empresários, banqueiros, políticos e mesmo da imprensa. Costuma ele usar expressões contundentes, desconcertantes, que ferem os tímpanos de quem está habituado a ouvir mesuras ou salamaleques. Quando fala, não se preocupa em conter a espontaneidade do vocabulário, nem tampouco com os seus interlocutores. Procura explicitar o que acha, o que pensa. Ataca pesado, como se comenta, a grosso modo, mas não pratica deslealdade com ninguém. Este mérito deve ser considerado, principalmente quando, com humildade, que éoutro componente de sua personalidade, afirma estar sempre disposto a retroceder se estiver equivocado neste ou naquele caso. A verdade é que já se perde nas brumas do tempo a lembrança de haver uma autoridade civil se portado como tal. Em épocas recentes, sua cabeça jáhavia rolado, tantas são as conveniências contrariadas. Aliás, deve-se ao presidente Itamar Franco este surpreendente estilo de governar, longe das pressões da politicalha que só fizeram prejudicar o povo brasileiro. Na semana última, em entrevista concedida a uma estação de televisão, o Ministro da Fazenda explicou que o seu cargo não mais estava,como aconteceu por muitos e muitos anos, a serviço de empresários sugadores do governo. Em outra oportunidade, disse não se intimidar com alguns moradores da avenida Paulista, referindo-se à poderosa FIESP. Pena que no final de dezembro termine a fase Itamar e o ministro Ciro Gomes tenha de deixar o cargo, até porque já tem compromissos aparentemente irreversíveis.

A cada manifestçao do Ministro, vem a reação automática. Porém, nesse quadro de agressões e guerrilhas, consegue-se observar as mudanças que estão se operando. A principal delas é o fato de um político dizer clara e abertamente, qua não defende os interesses da classe dominante, a qual, há anos mama nas tetas do poder, por ser mais fácil ou por incapacidade de manter-se dele desatrelada. Isto vem provar ser insofismável a tese de que esse tipo de empresário é desastroso para a sociedade como um todo, pois dela só pensa em tirar vantagem, através do conluio com ultrapassados dirigentes da nação. Outro aspecto merecedor de destaque é que começa a ser desenhado um diferente perfil do político brasileiro, retratado na pessoa de Ciro Gomes, que não teme os tradicionais mandantes nas regras do jogo, através das quais, ao longo de décadas ganharam demasiadamente, em detrimento damaioria sofrida. Agoraas normas são respaldadas no desejo de atender aos anseios populares, às camadas mais baixas da comunidade, embora às vezes nem pareça,em razãodas interpretações maliciosas que são dadas, inclusive pelas informações tendenciosas ou despreparadas dos meios de comunicação.

As últimas ações do ministro,visando evitar a exarcebação do consumo e a conseqüente escassez de mercadorias, estão tecnicamente corretas. Muitos empresários, ao perceberem maior demandada clientela, passaram logo a aumentar os preços, em vez de produzirem mais. Com essa atitude antipatriótica, o governo viu-se sem outra alternativa a não ser a que tomou. E nem faltou aviso do próprio Ciro Gomes, ao apelar pelacautela nas compras e manutenção das cifras nos produtos ofertados. Tudo transparente, sem traição alguma. Resta colocar as fábricas a todo vapor e as restrições serão afrouxadas. Faz-se necessário acreditar no plano, com ele colaborar e esquecer o antigo bem-bom das proteções e das benesses. Isso acabou.

O período difícil do Real vai ser superado. No atual estado belicoso muitos ainda quedarão, mas que não sejam mais do batalhão formado pelo povo e sob a chefia de um dirigente sério, representado por um ministro destemido e cônscio de seus deveres. A luta vai prosseguir, e, com certeza, os apologistas da inflação serão os perdedores, no final. A não ser que adiram ao exército triunfante, reexaminando e recompondo suas posturas individualistas, mesquinhas e imediatistas. A exemplo de Ciro Gomes, político de nova visão, os emprsários, especialmente aqueles acobertados por privilégios e favoritismos, precisam se modernizar, para que juntos possam empunhar a bandeira da vitória contra a inflação. 

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