Carlos Gaspar 15.09.1996
Viver bem ou mal, independe exclusivamente de querer. O destino tem suas predileções. Daí porque nem sempre as condições financeiras ou outras mais são indispensáveis. Mas, sem dúvidas, há como tornar menos pesado o trânsito por este planeta. Entregar-se à crença religiosa pode ser uma opção. Viajar, movido pela cultura ou pela recreação, constitui fascinante atrativo, além de quebrar a rotina. Dedicar-se aos livros e aos estudos se apresenta, igualmente, como variante. A literatura, as artes e a música traduzem-se em escolhas de fino deleite. E assim, existe uma série de alternativas ao sabor de cada um.
Estas inequívocas constatações servem para indicar que os indivíduos possuem características particulares. E com cabeças diferentes. Daí sua perfeição, vazada nessas inúmeras espécies de comportamentos. Eu, particularmente, adoro o labor cotidiano. As horas, os dias, as semanas, os meses e até os anos passam, sem que consiga vencê-los. Sendo múltiplas as minhas obrigações, trato de cumprí-las racionalmente. Não obstante essas ocupações, para mim agradáveis, igual a qualquer criatura, em algumas ocasiões, sinto-me enfadado. Exaurído física e mentalmente.
E assim, quando olho para os ponteiros do relógio do tempo, percebo, de pronto, que tudo fugiu. Correu. Saiu em disparada. Com rapidez tamanha, que nem deu para notar. Semelhante a um veículo em altíssima celeridade e o motorista sem se dar conta do indicador do velocímetro desembestado. Pelo abuso, pela imprudência, pelo excesso, o desastre tende a ser fatal.
Então, nesse quadro, aprisionado pela moldura, medito acerca de mim mesmo. As inquirições persistem. O que afinal, vim fazer aqui na terra, campo de vida e de morte? Por que nela deixo de buscar somente o que há de belo, para ficar submisso do exasperamento? Qual o motivo que me leva a ser o que não sou e a não ser o que sou? Carece de argumento convincente, a resposta. Sucessivamente, conquanto nesta minha exaustão a reclamar um tônico para renovar as forças, ainda faria incontáveis questionamentos, que me inquietam a mente, mas impossíveis de externá-los. Coisas inerentes à sociedade, a qual pertenço, circundado por tantos que se consomem por dentro, tal estivessem presos a tirânicos grilhões.
Neste interrogatório e nestas especulações, não carrego qualquer desgosto ou decepção individual, ainda mais quando apelo para comparações e me certifico dê que, por desígnios superiores, pertenço ao rol dos privilegiados. Porém entendi, hoje, no impulso da reflexão, talvez derivada do próprio cansaço, de colocar à baila um tema que não é somente meu. Contudo, se ele for estranho a maioria, poderá servir como instrumento de análise a quem se interessar. Na minha visão é de relevância este despertar, de ordem absolutamente privada, interior, pois tem o objetivo de remexer, tal como agora procedo comigo mesmo, também com os corações alheios. Acrescente-se que, no decorrer e ao final da meditação, o equilíbrio e a isenção separarão o desejo de ser, da inequívoca realidade. Ambos discordantes entre si e frustrantes.
A insegurança e o desapontamento então retratados, precisam ser extirpados. Para isso, emprimeiro lugar, o fundamental concentra-se no detectar os motivos de tão dolorosa perseguição. Em geral, totalmente desconhecidos. Por essa razão, na prática, muitos afundam-se no perde-perde e, às vezes, emergem para o perde-ganha. Os que se sentem de bem consigo, por terem acertado no palmilhar do ganha-ganha, são exceções.
A noite já vai alta. Em vez de alongar o corpo extenuado sobre o confortável colchão da cama que me espera, preferi ficar na intimidade introspectiva, deixando minh’alma à vontade para travar este debate. A solidão, de quando em quando gostosa, contribuiu, sobremaneira, na expansão do clima espiritual a me envolver. E digo, dou graças a Deus, visto serem raras as oportunidades, no corre-corre do ramerrão, para criar um instante de refluxo da existência, a partir do início.
Todos dormem. Nada me interrompe. Nem o barulho do ar condicionado, agora desligado. Achei melhor abrir a porta da varanda. Ouvir o sibilo do vento de verão. Encher-me da brisa que amaina as tensões. E, dessa forma, me solto. Descontraio-me, aliviado. Tranquilo. Admiro o céu, a lua, as estrelas e imagino se também fazem indagações. A ciência já teria definido, exatamente, o que representam na ligação entre o homem e o universo? Mero traço de união? Para chegar onde? No indecifrável infinito?
O sol, devagar, de bem longe, sem se saber, também, sua origem, começa a dar sinais de aparecimento triunfal. Enquanto esmaecem os demais astros, como se estivessem despedindo-se da vida, ele vem surgindo, imponente, tal um imperador, eclipsando todo o séquito, com o seu brilho ofuscante. E semi-despida das vestes luzidias, a noite cede seu encanto, para que o cosmos seja preenchido pelo resplendor do antigo deus das civilizações primitivas.
E estabeleço a analogia como o ser humano. Enquanto uns morrem, outros nascem. Uns experimentando o fulgor em determinado momento, e outros se apagando após um período de realce. Assim, a natureza e as pessoas, convergentes e divergentes entre si, convivem em harmonia plena.