Arquivo

                                                      Carlos Gaspar*                                 24.10.1993

Certo dia, em um fim de tarde, estava em meu gabinete, na Associação Comercial, quando entra,  como de costume, o prezado amigo José Queiroz Carvalho. Tinha ele por mim uma atenção especial, que atribuo como originária do estreito relacionamento que mantinha com meu pai, desde a época áurea da Praia Grande. Acrescente-se a isso, a vizinhança da rua de Santo Antônio, embora a nossa casa fosse numa quadra e a dele n’outra. A verdade é que niguém desconhecia os laços de fraternidade que nos unia e, confesso, era o próprio Queiroz, na espontaneidade do seu temperamento, que fazia demonstrar, abertamente, essa convivência tão pura e natural. Provavelmente a franqueza da palavra e a falta de rodeios do dizê-la constituíam nossas maiores afinidades, razão pela qual, mesmo após eventuais divergências sobre este ou aquele assunto, postávamo-nos como se nada houvesse ocorrido.

A lealdade é uma virtude difícil de ser cultivada. Geralmente, por força de circunstâncias adversas, ela cede lugar. Interesses fascinantes, muito fortes, também colocam-na em segundo plano. Daí ser exceção hoje em dia, deparar-se com alguém extremamente leal. Leal sem limites. Mas o Queiroz era assim. Raro, muito raro, de se ver igual. Os que conviveram com ele sabem disso. É sobejamente conhecida, por exemplo, a sua fidelidade a Sarney. “Sarnê”, como pronunciava, co alegria e satisfação, o nome do amigo que mais amava. Recordo-me bem, já doente, abatido, ao revê-lo, pareceu-me algo melhorado, aparentemente revitalizado, e imaginei logo que algum remédio estivesse tomando, com sucesso para sua saúde. Mas antes que eu perguntasse, sobre os motivos de seu alegra semblante, de pronto anunciou: “Sarnê, foi me visitar ontem”. Por este episódio pode se concluir o quanto Queiroz era amigo dos seus amigos e o quanto estes lhe faziam bem. Eu, de mim, posso afirmar que tive o privilégio de ser um daqueles por ele eleitos para compor a galeria de tantos por quem se afeiçoou. E a tal ponto, que tivesse ou não razão nas minhas ações ou atitudes, já se punha ele, firme, seguro, enfrentando este ou aquele, desafiando o próprio Conselho Superior da nossa Casa, na defesa intransigente a minha pessoa.

No dia dez que passou, meu pai foi chamado para o reino de Deus. Nas exéquias, nas cerimônias fúnebres, também por intuição, ou porque sentisse a anuência, de relance, pela minha mente vi desenhada a imagem de Queiroz. Sabia que ele não teria condições de estar ali, ao meu lado, como de sua vontade, dada a enfermidade que o envolvia. Refleti, então, que o meu bom camarada talvez já tivesse iniciado, a duras penas, sua caminhada, seu calvário. Imaginei também que os dois, meu pai e ele, como que seguindo as regras do destino, não tardariam a se reencontrar, assim como fizeram, por longo tempo, durante quase todos os domingos, na recreação de um restaurante na Raposa. Foi questão de poucos dias, para que isso viesse a acontecer. E agora sei, e até me conforta, que os velhos companheiros, de missão cumprida, atendendo ao desígnio divino, podem estar juntos e eternamente reunidos a me guiar e orientar nos passos da vida.

José Queiroz Carvalho foi empresário, diretor da Associação Comercial do Maranhão e dela também conselheiro, por muito anos. Ao encerar suas atividades na iniciativa privada, ocupou, por diversas ocasiões, cargos de direção em empresas e autarquias estaduais. Em todos eles se houve em esmero, competência e seriedade, dedicando-se de maneira incomum, tal como sempre procedeu, nas responsabilidades do seu encargo. Portanto, se relevante acervo de bens materiais não acumulou, outorgou a todos nós uma herança maior, muito cara, que foi a lição da honradez e da fidelidade.

Pois bem, como ia contando no começo, ao penetrar na minha sala, entregou-me ele um velho colecionador, a título de empréstimo, contendo recortes de jornais da década de setenta, em que se acha publicada uma seqüência de crônicas, de sua autoria, sob o título “Vamos Abrir o Jogo”. Guardei, carinhosamente, o invólucro, para apreciá-lo quando conveniente. Uma vez só perguntou se já havia eu manuseado e lido o papelório. Como imediatamente mudei de assunto, assentiu na minha falha, fruto da exigüidade de tempo ao meu dispor. Não foi preciso responder. E nunca mais na matéria se tocou, esperando meu velho amigo, compreensivamente, que um dia eu lhe falasse a respeito do conteúdo do seu trabalho. De certa feita, há algumas semanas, dei-lhe a entender que já tomara a leitura, fato que o deixou curioso quanto ao meu parecer, que não pôde fluir porque tivemos o diálogo cortado. Mas desejo que o  meu estimado amigo saiba, ainda que tardiamente, do meu pensamento: a mais bela de suas crônicas é a intitulada “O Brilhante Jornalista”, de 04.11.72, devotado ao ilustre poeta José Chagas. Foi escrita em uma linguagem simples, mas temperada pela emoção e pelo senso de justiça, próprio do seu caráter, como atesta este trecho, que ora transcrevo: “José Chagas, se é que não mais tens jornais para escreveres, imita o Padre Antônio Vieira e escreve nas areias da praia da Ponta d’Areia os teus contos e os teus versos. Lá ninguém se incomodará e nem te impedirá e, tenho certeza, as ondas se amenizarão e os ventos pararão e, sob o céu de estrelas e à luz do  luar, escreverás com um cavalo marinho ou com o talo de alguma alga marinha os teus doces e gostosos versos”.

E ontem, ao fim da tarde, quando novamente sentado no meu gabinete, ao ver a porta abrir, tive a sensação de adentrar ali o amigo, para receber o meu abraço e os meus parabéns que agora lhe transmito, na continuação da conversa anteriormente interrompida.    

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Scroll to Top