Carlos Gaspar* 09.08.1992
Tive o prazer de receber, em meu gabinete da Associação Comercial, a visita do Sr. Embaixador da Áustria, no Brasil, que se fez acompanhar do seu Cônsul Comercial. Ao tomar conhecimento do desejo daquele diplomata de visitar a nossa entidade, diligenciei no convite a alguns companheiros, com o fim de proporcionar à ilustre autoridade, urna platéia representativa dos empresários da terra.
Após ouvir, atentamente, as primeiras palavras do senhor embaixador, cumprindo o ritual, traduzi a satisfação e a alegria de vê-lo entre nós, já que, do evento, que ultrapassa a reafirmação da cordialidade entre países amigos, deveria sair a perspectiva da abertura de um canal, no sentido do estreitamento das relações comerciais entre o Maranhão e aquele país europeu.
Na verdade, cada um visou desempenhar o seu papel, da melhor maneira possível. Ele, o embaixador, contando da evolução agrícola, industrial e cultural de sua pátria e eu, no meu habitual tom provinciano, à cata de enaltecer as potencialidades naturais do Estado e a infra-estrutura de que já dispõe, necessitando apenas ser melhor aproveitada. E após perguntas e respostas, das quais participaram quase todos os que se fizeram presentes ao encontro, como que simbolizando as nossas riquezas, ofertei-lhe uma coleção completa da História do Comércio do Maranhão, de Jerônimo Viveiros e Mário Meireles.
Depois de tudo terminado, com despedidas mútuas à porta do prédio, tomei nas mãos a minha velha pasta de trabalho e parti para casa, vendo o dia ceder lugar à noite, de modo tão depressa, tal como tudo ocorrera nas últimas horas. Fiz uma restrospectiva e verifiquei que tantos foram os meus compromissos que quase nem percebi o passar ligeiro das horas. Ou, quem sabe, é bem provável não tenha sabido eu administrar o tempo, razão pela qual me restaram muitos afazeres para o dia seguinte.
Nessa análise, já me dispunha a tomar o rumo de casa. O meu motorista, sempre apressado no fim do expediente-o que às vezes me deixa irritado -, com o pé no acelerador, acionou o girar das rodas do carro, sem que eu lhe informasse o destino, mas, pressentindo o término da minha faina diária, seguiu em direção ao São Francisco, onde resido. E foi exatamente no percurso, entre a praça Benedito Leite e a rua onde moro, que, com nitidez, me relembrei de tudo que havia dito ao embaixador austríaco sobre o Maranhão. Falei-lhe também da nossa posição geográfica no Brasil, do clima, do regime pluviométrico, da vegetação, do parque industrial por surgir e muito mais. Enfatizei-lhe que o Maranhão é a terra do acolhimento, do aconchego, onde não há os rigores das secas, próprios da região nordestina, nem os excessos das chuvas, estravagantes na parte norte do país.
Tal um artista extasiado pela obra que está produzindo, pintei o Maranhão, tornando-o atraente e encantador, para compor um par perfeito e andar de braços com a bela Aústria, que os séculos não conseguiram envelhecer, dotada que sempre foi de uma paisagem deslumbrante, com seus campos coloridos pelos verdes em vários matizes, misturados com o azul, o amarelo, o vermelho e o cor-de-rosa das flores que brotam natural e abundantemente em toda esta ondulada região alpina que causa perplexidade pela indescritível beleza que possui.
Não quero ficar com sentimento de culpa se exagerei, ao me expressar sobre os dotes e dons que este pedaço do Brasil possui, mas, se algum pecado cometi, foi unicamente pelo imenso amor que nutro pela minha terra. É verdade que esqueci de observar que não temos tido bons invernos, tal como antigamente, por isso mesmo a seca já vem mais agressiva, com a terra sem lavoura e sem produção a não ser de retirantes, viageiros sofridos que se destinam à capital, na esperança de dias melhores. Também não me passou a idéia de comentar sobre tanto sangue que jorra em muitos lugares, fruto da incompreensão daqueles que teimam em tirar proveito dos menos favorecidos, para se manterem, a qualquer preço, em suas cômodas posições de mando. Do mesmo modo, nem me lembrei de dizer algo sobre as crianças abandonadas, os analfabetos, os que morrem por falta de assistência médica, a fome, a miséria e a criminalidade. Na busca da minha tranquilidade, por eventual malícia cometida, conclui, em seguida, que nem era preciso mesmo me referir às nossas mazelas. Afinal, certamente uma comitiva do nível da que nos visitou, representando uma nação que já alcançou os melhores patamares de desenvolvimento tecnológico, científico e social, sabe muito mais sobre o Maranhão, do que se possa imaginar. Sem dúvida, mais até do que aqueles que aqui vivem. Só assim, depois desta reflexão, pude ficar com a consciência leve, pois não tive o intuito de vender gato por lebre, a quem, gentilmente, procura fortalecer laços de negócio e amizade. E até me alegro, porque acho que contribuí, juntamente com os sócios e diretores presentes ao colóquio com o diplomata, para que, amanhã, se possa usufruir muito de um pais que tem uma extensão territorial correspondente a um quarto da do Maranhão, mas que, com seus sete milhões e meio de habitantes (5% da população do Brasil), possui um PIB igual à metade do da nossa patria.