Carlos Gaspar* 15.07.1993
Quinta-feira, acabando a semana, dez e meia da noite. Chego em casa, meio cansado, adentro no meu gabinete de trabalho, tomo a pena e reflito acerca dos acontecimentos de que participei, já ao findar-se do dia: um de natureza meramente empresarial e outro na esfera da intelectualidade.
O primeiro tem como cena a abertura da IV Moda Maranhão, uma feira promovida pelo Sebrae, com o propósito de oferecer oportunidades aos empreendedores de efetuarem exposições dos produtos de sua fabricação ou comercialização, objetivando maior aproximação entre vendedores e compradores. Estou convencido de que as feiras são sempre um lugar de aglutinação, alegre e descontraído, pelo arranjo suave e elegante das lojas improvisadas, tornando-as atrativas aos olhos de quem visita. E, de igual modo, um clima criado para ver, ouvir, discutir e finalmente negociar, tudo dentro de um ambiente acolhedor.
Pois bem, ao encerrar o ato de abertura da mostra, usou da palavra o Sr. Governador do Estado. Abordou, embora com a brevidade da circunstância, o problema da dívida do Estado do Maranhão frente ao governo federal. Para ciência dos que ali se achavam, revelou o Dr. Edison Lobão que nos seus quase trinta meses à frente do Executivo já pagou mais obrigações do Estado do que foi possível investir. Significa que duplamente poderia ter realizado, não fossem os obstáculos financeiros com que se deparou ao assumir o Governo. Na defesa do Maranhão, relatou este fato ao Sr. Ministro da Fazenda, asseverando as enormes dificuldades que o desembolso compulsório e incompatível com as disponibilidades vem acarretando ao desenvolvimento social e econômico desta região. Ao mesmo tempo, propôs ao senador Fernando Henrique Cardoso uma compensação, um encontro de contas entre Estado e Federação, vez que esta também tem seu débito, que não é pequeno, para com o Maranhão. Pelo que explicou, ao termo da entrevista, houve o necessário assentimento do responsável pela pasta da Economia, restando aguardar-se, tão somente, seja aprovado no Congresso Nacional o projeto de lei que disporá sobre a maneira e os percentuais de quitação das dívidas públicas entre as entidades governamentais.
O assunto ficou na minha cabeça e com ele parti, em seguida à fala do governador, rumo à Academia Maranhense de Letras, onde fui assistir à posse de Neiva Moreira, nos quadros da Casa de Antônio Lobo. Aqui, como é natural, embevecido, envolvi-me com abeleza e o conteúdo dos discursos pronunciados. O novo imortal, símbolo, por si só, das lutas democráticas travadas especialmente na década de cinqüenta, e aplaudido freneticamente pela platéia apinhada, não teve como esconder as emoções, à demonstração de reconhecimento por toda uma existência dedicada ao jornalismo sério e combativo, em prol dos menos favorecidos. A peça oratória com que brindou os presentes, sem fugir à praxe da solenidade, se fez portadora tanto da homenagem aos que lhe antecederam na cadeira para a qual fora eleito, como da sua própria filosofia, adotada ao longo dos anos, de fundamento eminentemente socialista.
Joaquim Itapary, designado para saudar Neiva Moreira, produziu uma das mais fascinantes e ricas peças, de cunho literário e histórico, sobre a vida política do Maranhão, até a queda do vitorinismo. Valeu-se ele, além dos dons e aptidões pessoais, da convivência e do aprendizado experimentados nas oficinas gráficas do Jornal do Povo e do Combate, alicerçados na paciência e na amizade de Bandeira Tribuzi e sob a batuta do agora confrade de Academia. A forma e a essência, abraçadas pelo ilustre homem de letras, sem reparos e merecer, apresentaram-se repletas de brilhantismo invulgar, digno de elogios.
Apesar de enlevado, com as aulas ali proferidas com sabedoria e realce, sentado na minha poltrona, não descuidei de me fixar na composição da mesa que dirigia os trabalhos. Ao lado do Presidente Jomar Moraes, à direita o Governador Edison Lobão, e à esquerda a Prefeita Conceição Andrade, além de outras personalidades. Este quadro se manteve na minha visão, até retornar ao lar, sem me aperceber desse motivo. De repente, como que juntando tudo, voltei meu pensamento para as palavras do Governador, quando da inauguração a IV Moda Maranhão, sobre o acerto de contas com o Governo Federal. E me perguntei: por que então não empregar semelhante procedimento entre o município de São Luís e o Estado do Maranhão?
Na administração do Dr. Jackson Lago, essa pendência não obteve solução. Provavelmente o radicalismo e a exaltação de ânimo impediram um melhor entendimento, com vistas à defesa do interesse público. Eu mesmo, na condição de Presidente da Associação Comercial do Maranhão, em caráter estritamente confidencial, procurei interferir para que predominasse o bom senso. Não logrei êxito, talvez por falta de habilidade minha ou porque a hora não fosse propícia.
Agora, no entanto, sem receber qualquer delegação de quem quer que seja, mas tão somente estimulado pela tese da concórdia, como fator determinante do progresso, cumpre-se apelar para a prevalência da compreensão, entre Dr. Edison Lobão e Dra. Conceição Andrade, entre o Maranhão e São Luís, entre o cavalheiro e a dama, que, com grandeza, saberão colocar um basta definitivo neste caso. O governador é político e por certo conduzirá este processo com habilidade, tratando a cidade de São Luís, na pessoa de sua Prefeita, sem ransos ou revides. Nada de individualismo, revanchismos ou politicagem. Isto, evidentemente, o credenciará perante a comunidade da “Ilha Rebelde”. Não sei qual é o devedor, mas o importante é o acerto de contas, e sua operacionalização, levando-se em consideração unicamente o benefício do povo, que confiou nos dirigentes que possui. E se esta sugestão vier a se concretizar, bendirei novamente a Deus pelo dia de hoje, que além de tal conciliação, me permitiu vivenciar os eventos inspiradores desta crônica, graças ao Sebrae, com suas Feiras, e à Academia, com Neiva e Itapary.