Carlos Gaspar* 29.11.1992
Na semana passada fui à Brasília. Bem depressa. Viagem de vinte e quatro horas. Duas noites sem dormir, a de ida e a de volta, mas até já me acostumei um pouco com esse tipo de canseira. Afinal de contas, se o assunto de que fui tratar ficou encaminhado, nada mais havia a fazer, a não ser retornar à nossa São Luís, para o exercício rigoroso dos meus afazares e obrigações.
Ainda na capital federal, aproveitando os poucos e apressados minutos que me restaram no aeroporto, corri à loja que vende revistas, para verificar se existiam novidades. Surpreso, deparei-me, bem de frente, logo à entrada da livraria, com a recente obra do consagrado intelectual maranhense, Josué Montello, denominada “O Baile da Despedida”. Já sabia, através do que lera antes, que este romance do ilustre conterrâneo seria lançado pela Editora Nova Fronteira, no dia 25 deste mês, na sede do Museu Histórico Nacional. O que não imaginara foi poder, de pronto, antes da data festiva do evento, adquirir o precioso trabalho, fruto do empenho habilidoso e criativo do autor, que deve ter aliado a trama à verdade histórica do baile da ilha Fiscal.
Claro que na altura em que esta crônica estiver publicada já terei devorado, àvidamente, mais esse romance, tal como procedi com todos os demais, daquele que reputo ser o maior escritor brasileiro do presente século. Isto sem falar nos “Diários”, que se incorporaram, de tempos para cá, à minha companhia, na solidão da insônia, com os quais absorvo lições que não se ensinam na melhor enciclopédia e que jamais sairão das aulas rotineiras ou curriculares, transmitidas em qualquer colégio ou universidade. Assim estabeleci com Josué Montello, sem que ele saiba, certa intimidade, pela conversa que constantemente travamos, através dos seus livros, ainda mais também que, às terças-feiras, ansiosamente, aguardo-o, no “Jornal do Brasil”, com os seus inconfundíveis e primorosos artigos.
Eu e autor de “Os tambores de São Luís”, obra prima da literatura brasileira, nos avistamos, inicialmente, se não estou equivocado, em 1967, ou, talvez, em 1970. Evidentemente, o episódio, simples e discreto, não merecendo relevância, ele não registrou, já que me conheceu mesmo, identificando-me com minha pessoa física, não faz muito. Portanto, inexistiria até uma referência a Josué Montello, para memorizar, durante várias décadas, algo comum no cotidiano de um cidadão. É que me achava em Lisboa, juntamente com minha mulher e, à noite, ao nos dirigirmos para jantar num restaurante localizado no “Rossio”, exatamente à porta dessa casa, nos vimos pela primeira vez. Cumprimentamo-nos, formalmente, com um boa noite educado. De minha parte, pelo prazer de enxergá-lo em carne e osso e, da parte dele, óbviamente, uma delicada retribuição, até porque claramente observou, em razão dos nossos trajes e sotaques, sermos, como êle, também brasileiros.
Pois bem, os anos correram e só voltamos a nos dar um pelo outro, cerimoniosamente, em reuniões sociais ou de caráter oficial, aqui em São Luís. Mais proximamente, quando eu escrevia meu discurso, com qual passaria a integrar o corpo de sócios efetivos do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, resolvi telefonar-lhe para o Rio de Janeiro, com a finalidade de esclarecer várias dúvidas relativas ao tema que estava abordando. De D. Ivone, sua esposa, fui alvo de gentileza esmerada, pois que já sabia ser esta uma de suas virtudes. E do Professor Josué, a resposta do que lhe perguntara, deu-me na clareza e na simplicidade do estilo com que sempre marcou todas as suas produções, qualquer que seja a espécie destas. A propósito, não raro, trago de volta ao pensamento, trechos da belíssima oração com que saudou, na Academia Maranhense de Letras, o Dr. Pedro Neiva de Santana, ao tomar posse na cadeira de Qda. 39, patroneada por Gomes de Castro. E foi dessa mesma maneira, com singeleza e riqueza de conteúdo, que dissipou as incertezas que eu tinha sobre determinados momentos da vida do célebre Dunshee de Abranches. Ainda, para complementar a explicação ou para que eu a entendesse melhor, ofereceu-se para, tão logo a São Luís chegasse, em data já confirmada, colocar em minhas mãos um livro de autoria do maranhense Oliveira e Franklin, hoje Franklin de Oliveira, publicado em 1935, com o título “Ad imortalitatem”.
Foi assim que, já na nossa cidade, o Prof. Josué, acolhendo-me na sua Casa de Cultura, repassou-me o mencionado compêndio, cuja matéria consta de uma alocução pronunciada pelo então Oliveira e Franklin, com o intento maior de levantar a candidatura de Dunshee de Abranches à Academia Brasileira de Letras, em sucessão a Coelho Neto. O diálogo que mantivemos, na circunstância, conquanto não muito longo, serviu para comentar, com profundidade, o livro que me emprestou. E uma das coisas que mais deixou impressão a mim, do episódio que se iniciou com uma ligação telefônica, foi o fato de não ter havido, o nosso ex-reitor, esquecido de trazer ou de ter separado, para me ceder, temporariamente, a obra que, semanas antes, em conversa via satélite, me prometera. Não cabe aqui analisar as razões da palavra entusiasta e inflamada do jovem intelectual que desejava ver, por ser de justiça, na imortalidade, um dos homens destacados de nossas letras e detentor de uma bagagem cultural, traduzida em mais de uma centena de livros e trabalhos, que foi João Dunshee de Abranches Moura. Cabe, sim, a mim, rápida, e imediatamente, devolver o “Ad imortalitatem” a quem, tão despreendidamente, em confiança, me entregou, naquela memorável manhã, para que eu efetivasse a consulta pretendida.
Por incrível que pareça, embora quase diariamente abra um livro de Josué, como se fosse uma Bíblia, este dever ressaltou à minha lembrança em Brasília, no aeroporto, ao adentrar na venda de livros e revistas, quando vi surgir aos meus olhos “O Baile de Despedida”, ocasião em que, para ser atencioso com um amigo, comprei dois exemplares, presenteando-lhe um deles, para que, lendo Josué Montello, pudesse se deliciar e aprender, em detalhes, a história da última festa da monarquia: o baile da Ilha Fiscal.