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                                                      Carlos Gaspar*                          29.08.1993

Hoje vou ser breve. Chegando de sucessivas viagens e com orbigações inadiáveis, sobrou-me pouco tempo para uma conversa mais longa. Bem a propósito, pelas observações que tenho recebido da redação, devo usar da concisão no escrever do meu artigo, visando economizar e possibilitar melhor disposição da matéria. Assim, como se costuma dizer, caiu a sopa no mel, isto é, aliaram-se as minhas dificuldades às técnicas jornalísticas.

Pois bem, mesmo às carreiras, pude correr os olhos, pela “Veja”, saída na segunda-feira última. Dentre os inúmeros assuntos dela contidos, deparei-me com um, deveras interessante. Pode até ser que ele haja passado desapercebido para muitos, mas a mim chamou a atenção. Trata-se de uma reportagem sobre o município de Matão, situado no interior de São Paulo. Ali, prefeito e empresários, permanentemente, vêm experimentando um pacto, uma parceria, uma aliança prazerosa, em benefício da população. E tanto é prazerosa que os empresários, integrando um colegiado, decidem, juntamente com as autoridades, sobre as prioridades e os investimentos da cidade, que conta com cem mil habitantes. Do entendimento, espontaneamente, define-se a contribuição ou participação financeira entre as partes.

Comenta o autor do texto que Matão é a cidade dos milagres, ao comparar-se com as demais do País. Lá, todos têm casa para morar e contam com os serviços de água, luz e esgoto. Além do mais, apenas três por cento das ruas não são asfaltadas. Há escola, sem problema de vagas para os estudantes, não se vê filas em hospitais e ninguém passa fome, pois a pessoa que necessita recebe, de graça, a qualquer hora do dia, pão e leite na Prefeitura.

Se me fosse possível, até republicaria em algum órgão de divulgação a tal reportagem, para propalar aos quatro ventos do muito que pode ser feito, quando há determinação e seriedade. É verdade que o empresário ajuda,  mas a Prefeitura faz, e muito bem, o seu papel. Como expliquei no começo, existe uma relação prazerosa e não indiferente ou hostil, quando os dois, Governo e iniciativa privada, em outros lugares, vivem se arranhando e agredindo, por falta de bom senso e equilíbrio. Em Matão, por exemplo,  já apareceu a OAS, com um CIAC debaixo do braço, responsabilizando-se pelos “esquemas” brazilienses. O alcaide fugiu da oferta, porque está consciente de que é outro o caminho que leva a população a ver realizados os seus ideais. E por aí vai o dito e escrito na mencionada revista, em que fica patente a viabilidade de uma administração de boas intenções.

Depois do que li, procurei refletir e imaginar o que seria do nosso Brasil se, pelo menos, na metade dos seus municípios, predominasse essa mentalidade. Não haveria País no mundo que nos segurasse, nem o Japão ou os Tigres Asiáticos, com suas famosas tecnologias e admirada cultura de vida. No entanto como sou um eterno esperançoso,  guardo comigo no peito o convencimento de um dia chegar a ver ser operada a transformação que os brasileiros merecem e clamam. A classe  política, com seus altos e baixos, colloridos e tudo mais, devagar vai compreendendo que as práticas de ontem não mais serão as de amanhã. E minha convicção é ainda patente quando creio, firmemente, poder o Maranhão, mais depressa do que muita gente ossa pensar, vir a se atrelar nesses novos tempos que prenuncio.

Não obstante, contraditoriamente, foi autorizada a criação de perto de cem municípios, constituindo-se este ato no maior redesenhamento do mapa geográfico-político de que se tem notício no Maranhão. Claro que não tenho condiçõs de analisar de “per si” cada mudança dessas, mas a informação superficial, vazada em depoimentos, leva-me a concluir que teria havido um certo exagero na decisão dos senhores parlamentares. É voz corrente em São Luís que até entre alguns membros da Assembléia Legislativa, há os que reclamam do açodamento e da falta de critérios técnicos para o embasamento dos pareceres e do resultado da votação definitiva. Eu, de mim, fico imaginando que serão eleitos quase cem prefeitos e mais de mil vereadores; contratados, no mínimo, quarenta mil funcionários (estou sendo modesto) além da estrutura administrativa das unidades municipais, que ensejará a nomeação de mais ou menos quinhentos auxiliares diretos. É muito dinheiro de uma só vez, que vai sair do mesmo bolo, sem agregar nenhum recurso adicional. Assim, a rceita de um atual município será diminuída em favor daquele que surgiu de sua divisão. Somente a receita, vale afirmar, porque a despesa vai continuar igualzinha, inclusive os débitos para com a  Previdência, agora cobrados com veemência pelo Ministro Antônio Britto.

Espero, no final, que esteja eu equivocado. Mas, acima de tudo, torço para que alguns dos nossos municípios, à semelhança de Matão, venham a exibir, ao Brasil inteiro, um padrão ímpar, modelar de administração,  com ou sem a parceria do empresariado.      

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