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                                              Carlos Gaspar*                                 22.03.1992

A cólera ou o cólera, como queiram chamar, se se referirem à doença ou ao vibrião, tem sido, ao que parece, mais um motivo de gastos desordenados de valores expressivos, do que uma preocupação no sentido de deter o curso da epidemia. Se não há falha de memória, já no primeiro semestre do ano passado, se prenunciava sua vinda para nossos lados. Doença de quarto mundo, tem-se notícia de ter grassado, assustadoramente, no Perú, daí deslocando-se, através das pessoas e  dos meios naturais de transporte, para o nosso país. Inicialmente o Amazonas e a seguir os Estados vizinhos. Se ainda não chegou, certamente alcançará, também, na sua propagação inevitável, os nossos irmãos de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul. Nada escapará.

Os socorros destinados ao municiamento do exército preparado para o combate da doença, a partir do Ministério da Saúde, foram substanciais ao extremo. Escândalos de bicicletas, guarda-chuvas e mochilas estão a eles ligados. Deu queda de Ministro e prisão de funcionários públicos e de empresários em conluio. Assim, o surto tão apregoado do vibrião pode até ser considerado positivo, vez que trouxe à tona vários casos estarrecedores de malversação de recursos públicos, em uma área que aparentemente estava na mais perfeita ordem.

Tudo leva a crer que os Estados, especialmente os nordestinos, com raras e honrosas exceções, devem ter palmilhado a mesma estrada, neste aspecto. Isto é, ficou criada mais uma justificativa para pedidos de polpudas verbas emergenciais, cuja destinação, geralmente, a população nunca sabe, vez que não vê, materialmente, sua aplicação. Ressalve-se, verdade se diga porque a olhos nús, os maciços dispêndios efetuados com os meios de comunicação, alertando e orientando, mas que, obviamente, privilegiam os veículos ligados aos interesses dos detentores do mando. Assim, o objetivo maior não indica ser, como raramente acontece, a estratégia em prevenir e preservar a saúde do povo desassistido. O resultado positivo, se efetivado, surge por via de consequência.

Algumas unidades da federação, entre elas a nossa, naturalmente no afã de pressionar as autoridades do poder Central, chegaram a exagerar no exercício da tática adotada. A interdição das praias e o anúncio, a cada instante, do número de pessoas acometidas pela cólera, ainda que sem confirmação oficial, tornaram-se tema nacional. As televisões em seus horários nobres de jornalismo difundiram, pelo Brasil e exterior, o pretendido estado de pânico que estaríamos vivendo. Desse modo, mais uma vez, São Luís e todo o Maranhão, foram divulgados de maneira deformada, para tristeza e vergonha dos seus verdadeiros filhos. E face a isso implantou-se, em alguns setores da economia, um profundo caos. Bares, restaurantes e hoteís indiscriminadamente, esvaziaram-se da noite para o dia, como se já não bastasse o natural esfriamento da atividade, decorrente da própria recessão econômica. Dupla maldade: além da queda, o coice, como costuma dizer o povo. E os investimentos que têm sido feitos na área de turismo, quando retornarão?

Na   semana   passada,   os   governadores   do   nordeste se fizeram em bloco,

após todo o estardalhaço nacional em torno da epidemia, para arrancar do Ministro da Saúde mais dinheiro, sob o pretexto do alastramento incontido da peste. Empregaram o mesmo estratagema habitualmente providenciado na montagem da indústria da seca. Que surpresa! Que decepção! Voltaram de mãos vazias. O plano não vingou. A presença de um homem de bem e competência internacionalmente comprovada, na área da saúde, foi suficiente para desbancar e desmascarar os foliões que vivem fazendo festas e dançando à custa do suor dos contribuintes e do povo.

Aliás, convém relembrar que o Dr. Adib Jatene começa suas ações na nova função, demonstrando, mais uma vez, saber e experiência. Dá logo um basta nas construções desordenadas de hospitais, muitos deles projetados apenas para serem utilizados como instrumento de desvio do dinheiro público em favor das partes contratantes. Enquanto isso, as casas de saúde existentes estavam praticamente paralisadas, pelo sucateamento que lhe foi imposto, fruto do descaso e da distinção concedida à rede particular envolvida em atitudes não recomendáveis. Aqui mesmo no Maranhão chegou a circular denúncias, que não foram apuradas, sobre favorecimento a alguns hospitais, por meio das famosas GIH.

Em seguida,  expressando a larga visão que possui sobre os problemas sócio-econômicos, o Sr. Ministro propõe um pacto social concreto, ainda que setorizado. Sugere que os recursos do FINSOCIAL, depositados em juízo e no aguardo de julgamento sobre sua constitucionalidade ou não, sejam objeto de um acordo entre empresários e governo, ficando cada um com a metade desse dinheiro. Com isto, o setor de saúde receberia uma injeção de 1,5 trilhões de cruzeiros e as empresas, em litígio, que já haviam tirado do seu giro a importância em guarda, teriam de volta outro tanto, para reforço do seu ativo circulante. O assunto foi visto com simpatia pelas lideranças classistas e estuda-se uma forma jurídica, no sentido da perfeição jurídica do ato.

Por último, com a serenidade de quem cumpre seu dever com determinação e conhecimento de causa, em resposta aos governadores que lhe foram pedir bilhões de cruzeiros, diz que a cólera não atemoriza ninguém nos dias de hoje, quando já se conta com o soro e os antibióticos, outrora inexistentes. A refutação, assim posta, teve um efeito semelhante ao de uma ducha d’água sobre uma fogueira. Apagou tudo. Anulou a pretensão que antes, provavelmente, seria atendida.

Como se depreende, a cólera, em si, não é apenas um mal. Ela traz também proveitos ao país; sinalizando que sua erradicação depende do estabelecimento de uma política de infra-estrutura voltada para a saúde. Uma postura definitiva que não permitirá, nunca mais, seu retorno e ataque. Nem dos seus aproveitadores. Desta forma, com uma só cajadada, dois coelhos são mortos.

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