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Carlos Gaspar*                                   27.06.1993

O momento nacional é mais preocupante do que se possa imaginar. Hoje, na perspectiva do passado, conclui-se que a cassação do mandato do senhor Fernando Collor de Mello terminou por não ser uma demonstração da incolumidade das instituições. Limitou-se a espelhar uma decisão corporativa, respaldade em corriqueiros e evidentes fatos de corrupção. Com semelhante argumento, várias deliberações já deveriam ter ocorrido, mas os organismos  encarregados das ações específicas preferem permanecer na omissão. Portanto, essa conversa de “passar o Brasil a limpo” não significa mais que mera frase sem sentido e inconsistente.

Ao virarmos as páginas da nossa história, apenas de 1964 até hoje, vamos constatar que o aproveitamento pessoal do bem público tem sido uma constante por quem detém o poder. Ainda estão vivos e atuantes alguns dos homens que se agarraram nas fraldas da revolução de 1964, nutriram-se dela e se fortaleceram economicamente. Citar nomes e exemplos, além de ser uma perda e tempo, deriver-se-ia para a prática da injustiça, ao deixar de relatar um inquantificável número de tantos que compuseram o cenário de enriquecimento ilícito.

Pode-se deduzir, esta forma, sem sombra de dúvidas, que o movimento militar, surgido com o propósito de combater o comunismo, teoricamente com a possibilidade de ser implantado no Brasil, constituiu-se, paradoxalmente, em um mar de lamas, para usar a expressão getuliana. E o efeito é a nossa triste realidade, em que até o Governo reconhece a coexistência promíscua entre a corrupção, a miséria e a fome. Estas duas últimas, aliadas na sua fragilidade e, concomitantemente, filhas espúrias da primeira, representada pelo próprio poder instalado no País. E de tal maneira isto se revela, ao afigurar-se inexeqüibiliade do emprego de qualquer início saneador ou moralizador, que culmina por não permitir o reencontro da sociedade brasileira, na construção de um futuro auspicioso.

Como pano de fundo, arraiga-se progressivamente a inflação, resultado do descompromisso da classe política para com a Nação. E é exclusivamente em função desta causa que se apresenta mais obstruída a operacionalização de um projeto sério, visando à estabilidade da economia. Esta verdade se confirma pelos obstáculos com os quais já se defronta Fernando Henrique Cardoso. Dificilmente o senador do PSDB conseguirá efetivar as medidas anunciada. As pressões são extremamente fortes. O corporativismo atua de modo preponderante, tão somente em decorrência da lucidez do Ministro da Fazenda, ao entender ser básico arrumar inicialmente o setor público, como ponto de partida para a solução dos problemas. Só que ele está esquecido da quase impossível missão de colocar em ordem a casa de muitos donos ou onde muitos mandam. Os governadores, os prefeitos, os deputados estão aí reclamando, ostensiva ou veladamente, conforme a circunstância. O judiciário, do qual, receosamente, quase ninguém fala, segue ao sabor dos seus privilégiose da lentidão injustiçada, por onde se escondem e proliferam células cancerosas, a se disseminarem pelo aparelho estatal.

O Congresso Nacional, diga-se de passagem, é uma vergonha, ressalvadas as exceções de praxe. Vale relembrar, em uma entrevista transmitida via canal de televisão, a juíza Denise Frossard que, colocando os bicheiros na cadeia, afirmou serem frágeis as leis penais, porque os seus elaboradores talvez as tivessem votado para si mesmos. Que desgraça! A avidez e a falta de escrúpulos são tão comuns que brigam os parlamentares para participarem da mal afamada “comissão de Orçamento”, já se traduzindo como prêmio ou vitória, pois quem dela for membro está habilitado à manobra com as verbas públicas, dirigindo-as de acordo com sua conveniência pessoal. Ficou notório o episódio dos “sete anões”, com justificado estardalhaço, mas sem qualquer conseqüência concreta. Inúmeros outros acontecimentos têm como atores deputados e senadores, inclusive o Presidente da Câmara Federal, mas nenhuma providência é tomada, em total desrespeito à população.

Excluindo-se um caso aqui e outro acolá, os políticos estritamente profissionais passam a imagem de homens riquíssimos. São proprietários de fazendas, apartamentos de alto luxo, mansões, empresas, dinheiro á vontade. De onde tiraram, se sempre tiveram como única fonte de renda os subsídios auferidos no exercício dos mandatos outorgados? Alegar que a famosa “declaração de bens” é a comprovação devida não passa de lorotagem conhecida. Assim como mentirosos são gastos discriminados à justiça eleitoral, efetuados durante as campanhas políticas, cuja aprovação confirma a conivência daquela.

Paralelamente a tais processos, a fome e a miséria crescem, a dimensões que já apavoram, fazem medo. E os políticos insistem no método clientelista, para conservarem anestesiados e dependentes milhares de famílias espalhadas por este Brasil. Com as rédeas da nação nas mãos, nem assim dão a mínima prova de que a democracia e um regime de ampla convivência social, pacata e harmônica. Tudo indica que continuam optando pelo descaminho da corrupção individualista e desenfreada. Retomaram o poder dos militares e prosseguiram na expansão da putrefação que os envolve, sob o pretexto de redemocratizar a vida nacional. Por incrível que pareça, são os políticos que tendem a inviabilizar a democrcia, enfraquecida pelos escândalos, pela fome e pela miséria. Longe está ela, portanto, de se mostrar revigorada com o “Collorgate”.

Jair Bolsonaro, deputado federal sem expressão, detonou o sinal da reação dentro do Parlamento. O fujimorismo está em marcha. É preciso detê-lo, mas com atitudes honestas e patrióticas. Ainda há tempo.       

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