Carlos Gaspar* 19.05.96
Na quarta-feira passada, durante uma exposição de quadros do artista plástico Rogério Martins, levada a efeito no salão principal da AUVEPAR, coincidentemente formou-se um pequeno grupo, e o assunto da conversa girou em torno da privatização da Companhia Vale do Rio Doce. Um dos participantes mostrou-se contrário, alegando que o preço do controle acionário da empresa estava abaixo da realidade.
Acho que, acerca de tão palpitante tema, sinto-me no dever de me manifestar, ainda que superficialmente. Em princípio, sou a favor das privatizações em geral. Vejo as doutrinas sobre as quais os especialistas tentam fazer prevalecer seus argumentos, como natural evolução do mundo científico como um todo. Trata-se aqui, sem dúvida alguma, do enfoque que é dado à função moderna do Estado, no ambiente ao sabor das novas especulações.
Efetuando-se um retrospecto na história da Economia, como ciência, verifica-se que surgem teses, aprimoram-se, desaparecem, ressurgem outras e assim sucessivamente, com o objetivo maior de achar uma solução mais aceitável, para estabelecer entre os cidadãos e o Estado, um convívio equilibrado.
Pois bem, o Maranhão está também contagiado pelo vírus da privatização. A respeito disso, fui solicitado, no mesmo dia e praticamente para a mesma hora em que estava sendo aberto aos visitantes o trabalho de Rogério Martins, a me incorporar a um grupo de empresários, no Palácio do Governo, com a finalidade de conhecer a pretensão das autoridades, relativamente à questão da alienação de vários ativos improdutivos e onerosos. Claro que, como anfitrião, do evento artístico teria dificuldades em me ausentar, justo no momento de receber os meus convidados, e por isso deixei de constar da comitiva.
Já que passou o momento de expender meu pensamento em uma circunstância ímpar como aquela, imagino ainda assim poder evitar ser omisso, no debate. Levando também em conta que a distância, no tempo, ainda éirrelevante, espero não haver me feito atrasado para o colóquio, o qual tomo a liberdade de agora dele participar.
Salvo engano, as privatizações propostas giram em torno da CEMAR, CAEMA, COPEMA, CEASA e talvez mais alguma outra. Segundo soube até o famoso BEM se incluirá nesse rol. Estaria em situação de ameaça, não fossem os depósitos e demais recursos da Fazenda alí concentrados. Acredito que estas companhias estejam dando imensos prejuízos ao governo, ou melhor, ao povo. Contudo, tais ocorrências lesivas, são conseqüência de desmandos administrativos através da corrupção, do desperdício ou do despreparo profissional de seus dirigentes, ressalvadas as exceções de praxe. Riscos operacionais existem em qualquer negócio.
Discordo, em parte, quando se alega, genericamente, que ao Estado não compete criar e gerir empresas. Em fases decisivas, para alavancar o desenvolvimento e, não dispondo a iniciativa privada de recursos líquidos para investir, o Estado é obrigado a suprir essa lacuna. Isto não justifica a compulsoriedade de, no futuro, alienar, apressadamente, seu patrimônio. Poderia ou deveria ser realizada em um cenário bem mais favorável. Porém, a falta acentuada de fundos para atender a pagamentos de empréstimos contraídos e vencidos, cujos valores recebidos foram aplicados maldosamente e sem retorno planejado, está determinando esta alternativa. Aqui, a doutrina do neo-liberalismo é mera desculpa.
Mas, não adianta chover no molhado. Por isso, no meu ponto de vista quanto a venda desses e outros bens que o governo pretenda desfazer-se por qualquer motivo, deverá ser revestida de cautelas, no tocante a fugir de um maior prejuízo. Daí porque precisam eles ser avaliados corretamente, a preço de mercado e considerando que, estando implantado o empreendimento, caberia agregar um valor adicional. Quem vai compar uma fábrica completamente montada, por exemplo, paga bem mais do que custaria ela ainda projetada. Como se diz, pegar o bonde andando sai mais barato do que construí-lo, embora novinho em folha. Uma auditoria, contratada através de processo licitatório transparente, indicará a faixa de oscilações de preços.
Efetuar a venda em leilão público e em pequenos lotes de ações, de acordo com os objetivos das empresas, significa a oportunidade de proporcionar a todos, democraticamente, o direito de investir. Evidentemente que uma qualificação, mais financeira do que técnica dos pretendentes, poderia ser adotada, respaldando a continuidade do serviço ou da produção, especialmente se de caráter indispensável e estratégico.
A aceitação de “moeda podre” como forma de pagamento é uma alternativa inviável, fora de qualquer cogitação. O Estado termina assim, sem patrimônio em troca de nada.
Estas sugestões preliminares, como o próprio nome indica, são simples lembranças, possivelmente até desnecessárias, porque todas as preocupações, no sentido de defender os interesses do Maranhão, obviamente já se acham resguardadas.
No fundo, lamento bastante que a politicalha tenha produzido tantos males a este país. O Maranhão não fugiu à regra, acrescentando-se o abandono das apurações de administrações propositadamente danosas. Afinal, são todos compadres. Sonhadores são os que acalentam o tomamento de medidas drásticas contra os dilapidadores do muito que custou ao contribuinte de boa fé.