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                                                 Carlos Gaspar*                                 26.11.95

Viajava de São Luís para São Paulo quando li, em um dos jornais oferecidos pela aeromoça, a notícia de que, pela primeira vez o sr. Fernando Henrique Cardoso sentira o gosto amargo da presidência da República. Tratava-se, evidentemente, do caso Sivam, em que está envolvido um de seus auxiliares, o embaixador Júlio César Gomes dos Santos, cujos desdobramentos logo virão à tona.

Fiquei pensativo com a afirmação. Afinal, decorrem onze meses de governo e somente agora apareceu um respingo de corrupção, embora ainda não comprovada. Aliás, o segundo. O caso Dallari foi o ato inaugural, sem, no entanto, repercussões espetaculares. Para um país como o nosso, de péssima fama nesta área, é muito pouco. Parece que já evoluiu o suficiente ou então hoje as ações são praticadas com mais cuidado. E, por isso, não encontro motivos para essa queixa do chefe da nação. A não ser o de que a sua reação alterna de acordo com as circunstâncias ou as conveniências.

A vida impões, pelas dificuldades da trajetória de cada um, uma série de situações desagradáveis, geralmente traduzidas am acidez. Portanto, o próprio cidadão Fernando Henrique Cardoso, bem antes de ser senador e bastante tempo antes de chegar ao posto máximo em que está investido, deve ter passado pelo que o diabo amassou, ao sentir, na boca o horror de ter provado fel. Estranha-se não ter desabafado nesta última ocasião, com tanto ênfase, tamanho sacrifício.

Mas a natureza humana é assim mesmo. Ninguém quer externar desapontamentos, enfrentar empecilhos quase instransponíveis ou algo semelhante. Todos desejam o mais ameno. Estar sempre na glória, sem qualquer problema. Aliás, Jô Soares, em uma recente entrevista concedida à revista “Istpo É”, transmite rara franqueza nesta questão. Assegura que é amante da fama, da evidência, e até sente falta quando é esquecido da dabalação. Este é o seu gosto amargo. E tantas figuras de destaque provavelmente seriam aqui nominadas.

Um dos prazeres maiores do homem é atingir o poder. Os exemplos ficam aos olhos de quem quiser ver. Mas recentementen destacam-se Ulisses Guimarães, Sarney e Collor. Itamar, neste aspecto, se me parece dúbio. Mas, de uma maneira ou de outra, com excessão do saudoso Ulisses, compulsoriamente desligado das vaidades terrenas, os demais novamente buscam o poder, mesmo que por ele já tenham transitado. E isto é absolutamente normal. Mesmo com gosto amargo, em determinadas ou freqüentes constâncias.

No Maranhão, em particular, ocorre exatamente igual. João Castelo já quis, em dois pleitos consecutivos, voltar ao Palácio dos Leões e não conseguiu. E nem conseguirá, pois presentemente o caminho é na direção do Palácio Henrique de La Roque; aquele outro, o da Pedro II, está quase se acabando. Até os l.eões, um dia destes, quando passeava por aquelas cercanias, aparentavam-me completamente anestesiados. Com Cafeteira aconteceu algo idêntico. Jackson Lago após terminar seu mandato na Prefeitura, perseguiu chegar ao Governo Estadual. Pode até haver, como acho que há, uma boa dose de idealismo em todos eles, contudo não deve ser desprezado o condimento de conforto que o poder proporciona a quem o detém.

A governadora Roseana Sarney nesse quase um ano à frente do Maranhão, ao que consta, não tem vivido tranquilamente; está pagando velhas contas, contraídas pelos seus antecessores. Herança amarga. Mas os seus interesses lhe tem ditado cautela. Cautela e dor. As intrigas da corte, que correm à boca pequena são por demais variadas. Abafá-las é a melhor solução, conquantom tem um custo. N o mínimo o do aborrecimento. Mas, vale a pena. Tudo pelo poder. Caso contrário, já teria abdicado.

E por aí a coisa continua. Vida boa é a do vizinho. Alimento farto é o da casa alheia. Mas em sã consciência, essa não é a verdade. Uns evitam comentar suas frustrações. Outros, tomados pela perplexidade com que não contavam, exibem logo suas decepções. Querem somente flores e palmas. Nada de espinhos e vaias. Esse é o ________ do nosso presidente. Açúcar e muito açúcar em seu café. Esquece ele que, de comer tanto doce pode ficar diabético. E aí tudo se complica. Essa doença não tem cura.

Vêm, dentro em breve, as eleições municipais. Para os políticos são elas uma prévia das eleições estaduais e federais de 1998. Começa, então, o desassossego, a dor, o gosto amargo pqra alguns. Mas tudo será absorvido ou digerido pelos profissionais do ramo que, como se costuma dizer, sabem dar a volta por cima. Sem trauma, sem choro nem vela.

Na pauta da legislação constitucional, com relfexo nos segmentos correspondentes, o direito à recondução, dos prefeitos, governadores e presidente da República. E estes se acham ansiosos por esse desfecho, no fundo torcendo para que se concretize a possibilidade. Novamente vale ressaltar que o apego ao poder que é infinitamente superior aos percalços e as surpresas eventuais e desagradáveis de quem administra. Ao sabor amargo, tão comum no paladar dos titulares dos respectivos cargos. E por isso, certamente os atuais ocupantes, talvez sem excessão, serão candidatos automaticamente, a reeleição. O presidente Fernando Henrique Cardoso, também embalado pela vaidade que lhe é própria, obviamente esquecerá os episódios amargos que neste momento reclama.     

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