Carlos Gaspar* 12.02.94
A igreja de Santo Antônio e o Seminário apresentam sinais de estrago na sua pintura externa. Independentemente da celeuma criada acerca de cor escolhida para este conjunto arquitetônico, comentou-se, amiudamente, na época, sobre o disparatado valor gasto pelo governo na execução do serviço. Mas o certo é que, naquela altura, isso pouco foi levado enm conta, pois o importante era acolher bem o Papa João Paulo II, que ali iria hospedar-se. E, no mínimo, a transitória residência do sumo pontífice deveria estar totalmente preparada. Custasse o que custasse, como de fato parece que pesou muito aos bolsos do povo. Não por culpa do representante de São Pedro, mas, evidentemente, daqueles que se aproveitaram da circunstância. Os useiros e vezeiros, de sempre.
Pois bem, as, ligações da Igreja com o Estado, na cultura cristã, são profundas e externas. Elas se perdem no tempo e seria consativo expor aqui o desenrolar dessa aliança, fruto da qual definiram-se os impérios marítimos, formados a partir da Era dos Descobrimentos.
No Maranhão, em particular, as coisas não foram diferentes. Apenas patra ilustrar a constatação histórica, recordo um episódio acontecido aqui mesmo em São Luís: proclamada a República, foi nosso primeiro Governador, comissionado pelo Governo Provisório, naquela fase transitória de Província para Estado, o advogado Pedro Tavares Júnior, de reconhecido talento, mas estranho à política local. Seis dias depois de ter assumido seu cargo, resolveu baixar um inesperado decreto, através do qual praticamente extinguia os laços que uniam o Estado com a Igreja.
O ato, conquinto dentro dos ideais republicanos, teve repercussão em todo o país, merecendo a desapropriação do Ministro do Interior, a quem estava ele subordinado diretamente, e até do próprio Presidente da República. A polêmica telegráfica entre diversas autoridades do poder central e o Dr. Pedro Tavares Júnior culminou com a renuncia deste, em menos de um mês de administração.E como o governador se recusasse a revogar o ato,fê-lo, discricionariamente, nos albores da República, o Coronel João Luiz Tavares, comandante do 5° Batalhão de Infantaria,sediado nesta cidade, declarando-o nulo, por determinação do Marechal Deodoro da Fonseca. Que começo de República!!!
Nas décadas de trinta e quarenta, certamente, o Estado e a Igreja ainda continuavam bem harmônicos. E tanto é verdade que, provavelmente, foi o D.Carlos Carmelo, então Arcebispo do Maranhão, quem cedeu ao interventor Paulo Ramos um pedaço de terreno, ao lado da Igreja de Santo Antônio, para a construção de um “Jardim da Infância”, que recebeu o nome de “Antônio Lobo”. A inauguração do estabelecimento de ensino ocorreu às dez horas do dia dezenove de abril de 1941, com foguetórios, pompas e tudo, oportunidade em que se manifestou, pelo clero, o Cônego Arias Cruz, de saudosa memória. Segundo os apontamentos da ocasião, o colégio tinha capacidade para acolher cento e sessenta e dois alunos.
Quando vivi naquelas imediações, diariamente passava à frente da mencionada escola. Era o meu caminho natural, ao ir à padaria “Santa Maria”, comprar os dois quilos de pães, necessários à primeira alimentação matinal. Isto sem falar da bolachinha, bem quentinha, para a merenda da tarde. Assim, é óbvio que tenha eu sentimentos de afetividade com o Jardim de Infância Antônio Lobo, até porque lá estudaram alguns irmãos meus, dos mais novos, e também o dirigiu, por muitos anos, a Prof. Camélia Viveiros. Esta distinta e culta senhora, que aprendi a admirar no convívo da vizinhança, juntamente com o seu marido, o Sr.Francisco Viveiros, foi dona e moradora do velho sobradão, outrora pertencente ao Barão de São Bento, onde ainda funciona a Escola de Música do Maranhão.
Hoje, bem cedo, ao rumar para o templo erigido em homenagem ao padroeiro de Lisboa, além da determinação rápida da caríssima pintura a que eu referi no início, surpreendi-me, do mesmo modo, com o estado do velho “Jardim”. Abandonado inteiramente.Quase no chão. As belíssimas telhas francesas, ou telhas de Marselha, retiradas do seu lugar e jogadas ao solo. Penso que já nem se encontram todas. Puro descaso. Relataram-me uns garotos que, no princípio do ano passado, ali chegou uma construção querendo demolir o prédio e edificar outro. Houve reação ante tamanho absurdo. E agora, segundo ouvi dizer, não havia verbas para a recuperação do imóvel. Pelo menos, nada foi feito visando a colocar em ordem o colégio. Enquanto isso, continuam prejudicados os seus alunos, por falta de aulas ou terem sido matriculados em qualquer escola mais distante. Eu, de mim, confesso não acreditar na tal escassez de recursos. Afinal, o governo tem esbanjado tanto dinheiro, que esta alegação não passa de incompreensível desfaçatez. Se há disponibilidade financeira na Secretária de Educação, para aquisição de um ou dois aviões, conforme alardeiam, como então não existirá para pôr em atividade um simples jardim de infância?
No entanto, já que vivemos uma fase de mudanças, pode ser que o Arcebispo esteja a reclamar a posse do terreno, de sua propriedade, ensejando ao Executivo o cruzamento de braços. E se isto for verdade, começa a se consumar, ironicamente, por iniciativa da Arquidiocese depois de mais de um século, o decreto do nosso primeiro governador, Dr. Pedro Tavares Júnior, homem de visão, e fiel aos postulados de 1889. Se bem que, agora, inesperada visita do governador Edison Lobão ao papa João Paulo II, certamente constou da pauta dos importantes assuntos tratados no Vaticano o caso do terreno onde se encontra, reduzido a ruínas, o Jardim Antônio Lobo.