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Carlos Gaspar 19.02.95

Como sou muito saudosista, minha  mulher fica preocupada em manter realimentado este meu sentimento, com o intuito carinhoso de agradar-me. Hoje mesmo, ao sentar-me para o lanche ou jantar, ela colocou sobre a mesa também um vidro cheio de bolachinhas, e uma lata de manteiga Real. Claro que a preferência recaiu sobre esta novidade, vez que não é todo dia que se tem oportunidade de saborear algo tão delicioso, especialmente se acompanhado de  um gostoso café com leite.

Na década de cinqüenta, conheci um amigo do meu pai, que lhe comprava trigo para suprir as necessidades de sua padaria, em Viana. Vinha ele constantemente a São Luís fazer negócios e tratar de outras tarefas, mas sempre elegia como seu quartel general a casa comercial em que eu já trabalhava, nas  horas desocupadas do estudo para não aprender a ficar na vadiagem.

O seu Mundico de Dunga, como  lhe  chamava papai, era uma pessoa interessantíssima e extremamente inteligente, para a época. Hoje, nesse ramo de atividade empresarial, a exemplo do que se sabe, certamente teria enriquecido. Naqueles tempos as coisas eram assim tão fáceis ou, ainda que fossem, homens como  o Sr. Raimundo Garcez Nunes  e tantos outros só sabiam  trilhar o caminho  mais difícil. No entanto, andavam de cabeça erguida e dormiam em paz. Não se sentiam ameaçados por CPI ou quebra de sigilo bancário. O dinheiro amealhado, aos poucos, ano após ano, com economia e sacrifícios,  era a conseqüência do trabalho honesto e persistente.

Pois bem,  o seu Mundico, pelo que pude observar, tinha na veia sangue de político ou, no mínimo, de politiqueiro. Ao entrar no armazém de secos e molhados, na rua da Estrela, sentava-se logo perto da escrivaninha, para um dedo de prosa com o Sr. Armando Gaspar. E aí as notícias saíam todas, uma a uma, nominando, cuidadosamente, as pessoas nelas envolvidas. Tudo repleto de críticas e expressões jocosas, tal um minucioso e espirituoso narrador de histórias. Pequenos detalhes, às vezes, constituíam um imenso parênteses do assunto tratado. Nada escapava. Nem ninguém. Era conversa que durava horas a fio, para deixar as coisas em pratos limpos.

Recordo-me que, habitualmente, para confirmar ou entrar no pormenor deste ou daquele episódio, o seu Mundico tirava do bolso um jornalzinho, escrito à mão, em letras de forma, com caricaturas e charges, de quatro páginas. Denominava-se “Ora pílulas ...”e, segundo pude perceber, o tal periódico era “impresso” certamente sob a inspiração dos Carvalhos e dos Cordeiros, na avaliação feita pelos palestrantes. Na verdade, é provável que o próprio visitante, na qualidade de colaborador informante, também estivesse no meio dessa fuzarca. Certo é que Viana toda estava ali espelhada, no disse-me disse, no fuxico, na  pilhéria, na conversa da barbearia, na disputa política.

Porém, com graça e respeito. Sem agressões ou  ofensas, o jornaleco, de tiragem reduzidíssima, cumpria sua finalidade, aparecendo de surpresa, ao amanhecer, nas portas das pessoas mais destacadas. Ou, então, nas daquelas que faziam manchete ou tema  principal de edição.

No começo do ano passado, quando de uma dessas andanças pelo interior, no afã de sensibilizar os empresários a se organizarem sob a égide de uma corporação, estive na cidade dos lagos, a minha terra natal. Ao tomar a rua Grande, entreguei o carro ao motorista e resolvi descê-la a pé. Queria revê-la  em detalhes. Casa por casa, beco por beco, pessoa por pessoa. Para tanto, nada mais prudente que abandonar o veículo e seguir, passo a passo, vagarosamente, o percurso  que terminaria, como de fato terminou, na praça da Matriz.

Depois de andar por duas ou três quadras, parei admirado. Diria mesmo, estupefato. Estava diante, em  frente, da casa onde, por longos anos funcionou a padaria do hoje saudoso Raimundo Garcêz Nunes. Parecia vê-lo na entrada ou no balcão do estabelecimento, com calça no rendengue e uma camisa pelo lado de fora, sempre risonho e atencioso, a esperar a chegada dos fregueses, enquanto saía a fornada de pão quentinho. Fosse espanhol, de massa fina ou de massa grossa, pouco importava, a qualidade era sempre de primeira. Ninguém voltava insatisfeito dali, tanto pelo produto como porque o proprietário se desmanchava em uma gentileza ímpar, qualidade que lhe era inerente. Veio logo a minha memória a história do “Ora pílulas...”, que com sua feição peculiar e seu conteúdo mexeriqueiro, certamente causava alegria a uns e inquietações a muitos.

E foi nessa viagem a Viana, que procurei encontrar algum número do tal jornalzinho, no desejo de incorporá-lo à minha biblioteca, como um documento importante e até mesmo histórico, dos costumes e da vida política da cidade. Infelizmente não achei um sequer, que por ventura tivesse sido conservado por alguém, resistindo ao tempo. Falei, sobre a minha pretensão, com um e com outro, especialmente com as pessoas mais velhas, sem sucesso.

Mesmo assim, confesso, não regressei de todo desolado. É que, ao estar na porta da antiga padaria do seu Mundico, mais forte me veio aos olhos a sua figura, carregando um pacote das famosas bolachinhas, que só ele sabia fabricar e com as quais era eu brindado, ao  tempo de garoto, aqui em São Luís, quando o estimado amigo   do meu pai vinha para tratar de negócios e colocar em ordem as notícias.

E eu agradeço a minha mulher que, na intenção de querer ver-me deleitado, mandou comprar as também gostosas bolachinhas da padaria Sta. Maria. Assim, sem desejar, propiciou ela que eu, ao mesmo tempo em que trouxesse

 à tona um quadro especial, guardado no inconsciente, pudesse  rememorar circunstâncias  marcantes e figuras excepcionais que, ao passarem por este mundo, deixaram o sinal imorredouro de suas  personalidades.

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