Carlos Gaspar* 11.09.94
Chamem-me de cabeçadura. Pouco importa. Vou continuar batendo na mesma tecla. Um dia, quem sabe, se não eu, mas alguém verá os frutos desta semente por mim plantada e que no correr dos anos persisto em adubar e cuidar. É trabalho de paciência, de quem acredita no que faz e, por isso, nãosinto o mínimo de desânimo nesta empreitada. Afinal, como empresário, sou conhecedor de que qualquer investimento tem o seu tempo de maturação.pode ser mais longo ou mais curto, porém retorna sempre, uma vez consumado em obediência a regras pré-estabelecidas.
Pois bem, nas incursões que venho efetuando pelas entidades de classe da minha categoria, procuro deixar patente a conscientização de dois conceitos básicos. O primeiro deles reside na análise aprofundade acerca de comportamento polêmico e questionável da figura do empresário. O segundo traduz a postura de independência que as instituições classistas devem preservar, nos seus relacionamentos internos e externos. Como se vê,ambos se acham interligados,compondo o mesmo cenário, de tal forma que o desvirtuamento de um implicará, fatalmente, na fraqueza e no deslustre do outro.
Quando era menino, já trabalhando na Praia Grande,certo dia ouvi alguém dizer, em expressão muito forte, que, no futuro, até para ser carroceiro seria exigido diploma. A lição ficou comigo e provavelmente em razão dela é que vejo o estudo, a preparação ea formação, como requisitos indispensáveis para o exercício de qualquer ofício. Assim, ser empresário não é apenas saber comprar e vender, ou transformar a matéria-prima em produto final. Este fazer, conquanto seja uma característica intrínseca da atividade, não define totalmente o profissional. Acrescente-se, também como fundamental, sentir-se ele um autêntico agente do desenvolvimento, que ajudará a promover de forma ordenada e equilibrada, com a conseqüente percepção do amanhã, contrapondo-se ao imediatismo que geralmente nada constrói.
As associações, federações, clubes, sindicatos, ou outras espécies de corporações, que agregam homens empreendedores, devem ser o reflexo de seus membros ou, no mínimo, de seus dirigentes. E aí é essencial que estes,além das condições que acabei de elencar, possuam a noção exata da função que a entidade deverá desempenhar, sob pena de torná-la desacreditada perante a opinião pública. Evidentemente que isto não é fácil. Ao contrário, trata-se de uma missão das mais difíceis. Para quem estiver na frente, no comando, pode ter um custo incalculável, tanto no aspecto material como no moral, dependendo da intensidade de maior ou menos transigência. Ou mesmo de intransigência, quanto a determinadas posições. Por outro lado, quem se omitir ou usar o nome da instituição visando compensações para si, mais cedo ou mais tarde terá a rejeição de seus pares e da sociedade.
Como todo curso de mudanças passa por altos e baixos, alegrias e tristezas, entusiasmos e decepções, também, no caso dos empresários e suas organizações não há diferença. Quem observa e analisa percebe que tais oscilações são obsolutamente normais. Assim, fica afastado o desalento quando a trajetória das metamorfoses, em dado momento estancar ou reduzir o ritmo de ascensão. Até porque as pessoas envolvidas nessas ações possuem capacitações e experiências diversas; ou então carregam consigo pretensões ocultas; ou, ainda, em grande parte são extremamente egoístas. Porém, pior ocorre quando o nível de competência de quem dirige, se revela aquém do mínimo para o posto ocupado. Porque aí, cego, sem nada ver, ele se agarra e recorre até a forças estranhas à economia interna de sua corporação, para tentar concretizar suas ambições individuais.
De todas as deficiências, esta última é a mais grave delas, porque amesquinha, diminui, achincalha a própria entidade, que se vê invadida em sua intimidade por elementos alheios a seu quadro. Esta atitude, além de provar a inexistência de aptidão de quem exerce o cargo, descaracteriza a associação na sua essência e mostra o grau de subserviência de quem recebeu, de seus companheiros, a confiança, a procuração para bem representá-los.
Estou cada vez mais convencido de que se isto ocorre no meio empresarial maranhense, trata-se de um outro episódio isolado. No entanto, faz-se necessário manter o estado de alerta, de sentinela, de vanguarda, para que os maus exemplos não proliferem, contaminando os desavisados. Por isso, continuo batendo na mesma tecla, como disse no início, defendendo a tese de que nas decisões de nossos assuntos, ninguém precisa ser chamado. Muito menos políticos, principalmente se inescrupulosos e desgastados por procedimentos merecedores de repúdio. E quem para eles acenar, obviamente, cairá na mesma vala.