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                                                 Carlos Gaspar*                                 12.03.95

Já se passaram dois anos com a drª. Conceição Andrade à frente da Prefeitura de São Luís. Tempo suficiente para que se possa levar a efeito uma avaliação preliminar acerca do trabalho que ela vem desenvolvendo. Acho que, se fosse efetuada uma pesquisa de opinião, o índice de aprovação do seu governo seria momentaneamente positivo. O fato em si vem confirmar que a famosa “caveira de burro” não está enterrada na capital do estado. Afinal de contas, quebrada por Jackson Lago esta superstição, Conceição Andrade consolida o aniquilamento de tal crendice.

Fico bastante à vontade para abordar este tema, pois não pertenço ao partido político da prefeita. Apenas compreendo ser um dever de quem milita na imprensa, embora em caráter precário, expressar um sentimento isento e independente. Aliás, costumo externar meu gesto de incentivo aos que zelam pelo bem público e demonstram amor por esta terra dadivosa, que acolhe a todos na beleza de sua história e na riqueza das suas potencialidades.

Falhas na administração municipal, devem haver diversas, como em qualquer gestão. Os seres humanos são assim mesmo, repletos de virtudes e de defeitos também. O fundamental é a supremacia das primeiras sobre os segundos e a permanente boa intenção na hora de decidir e executar. A dr. Conceição, salvo melhor juízo, tem sabido conduzir, dentro dos limites aceitáveis e até de modo surpreendente, os destinos desta velha urbe. Claro que ainda falta muito para se alcançar um estágio ideal, mas se pensarmos no que era São Luís em 1983, por exemplo, e o que é agora, saltarão às nossas vistas enormes diferenças. Nesse aspecto, sem dúvida alguma, eleições livres, nas capitais dos esatados, para escolha de seu dirigente maior, além de ter sido um avanço democrárico, se constituíram em bênção para a cidade fundada por La Ravardière.

Tenho o hábito de compulsar, sempre que posso, o Diário Oficial do Estado. Nele estão contidos todos os atos praticados pelo governo estadual. Assim, constato a facilidade com que sucessivos convênios, para repasse de dinheiro e outros fins, são subscritos pelo executivo estadual e quase todas as prefeituras municipais. Digo quase todas, porque São Luís tem ficado totalmente excluída desse tipo de procedimento. Para mim as razões são injustificáveis, pois se há transferência de recusros públicos até para entidades privadas realizarem obras, por que motivo não se adotaria a mesma atitude com a capital do Estado, através de seu tirular? Parece uma discriminação. Ou melhor, é uma discriminação contra o povo de São Luís. Se não estou equivocado, o último governador a firmar contrato com esta prefeitura foi o dr. João Alberto de Souza, embora em quantias relativamente pequenas e para apenas dois ou três projetos. Lembro ainda que o dr. Jackson Lago reclamava dos obstáculos para receber os valores pactuados, que se iam deteriorando com a inflação galopante da época.

Outra faceta a comentar, no relacionamento entre a Prefeitura de São Luís e o Governo do Estado, é a do respeito á autonomia. Talvez fosse até melhor dizer do desrespeito à autonomia municipal. Aliás, nesta cidade os governadores têm agido discricionariamente, sem a menor consideração com quem foi investido no direito de governá-la. Talvez seja a única capital de estado, em todo o país, invadida por “estradas estaduais”. Puro pretexto para se entrar na casa dos outros sem pedir licença. Seria possível relacionar algumas obras, sem que os prefeitos tivessem sido ao menos avisados. Para não ser maledicente na interpretação dessa postura, prefiro debitar tudo ao ainda remanescente autoritarismo, forjado nas duas décadas de ditadura.

Coincidentemente, o Estado é também governado por uma mulher. Lamento que ela tenha assumido as rédeas do Maranhão, em circunstância financeira desfavorável, fruto de gastos excessivos e desnecessários. Alguns até questionáveis. Mas o importante, agora, é ter convicção na capacidade de recuperação das nossas finanças. E isto por certo acontecerá.

Recordo-me bem, quando o sr. Edison Lobão chegou ao governo, queixava-se ele das dificuldades, da inaptidão do Tesouro em honrar os compromissos assumidos. De repente o dinheiro apareceu e muitas estradas foram feitas... E de repente, no último mês de seu governo, o dinheiro sumiu, o que valeu ao dr. Fiquene duras penas, que ainda repercutem, embora já se sinta o clima de recuperação, isto é, de que a fase mais crítica está sendo superada.

Como ia dizendo, o futuro do Maranhão está hoje nas mãos da drª. Roseana Sarney, ex-deputada federal de decantada vivência parlamentar e formada em Ciências Políticas. Veio para renovar, para mudar as práticas obsoletas que corrompem o exercício do poder. Ela tem pouco mais de dois meses n o cargo. Ainda se assenhora da situação. Incumbe-lhe, dentre outras atribuições, reverter o comportamento de padrastro que os governadores tiveram para com São Luís, discutindo com o poder municipal, colaborando na solução de seus problemas e, também, respeitando sua autonomia. A autonomia de São Luís corresponde à plenitude da cidadania de seus habitantes. Ainda mais quando a chefia municipal está ocupada por quem acena realizar um trabalho voltado para os interesses comunitários.

Nos dois anos finais de Conceição Andrade, que correspondem aos dois anos iniciais de Roseana Sarney, espera-se, ansiosamente, ver apagada essa mancha, que muito tem contribuído para refletir a imagem pequena da classe política do Maranhão.    

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