01.05.94
Carlos Gaspar*
Ainda é abril, pois estou escrevendo na noite do dia vinte e oito. O mês está terminando. Maio vai chegar, ou melhor, já chegou quando a edição desta matutino começar a circular. Também as chuvas já diminuem o ritmo.benfazejas chuvas, na sua maioria, que regaram as matas e os campos, encheram os rios e prociciaram alimento e vida aos habitantes destas terras do Maranhão.
A natureza, na sua sapiência, vai operando transformações cíclicas,de tal maneira que haja uma constância no equilíbrio entre os reinos vegetal a animal. A chuva e o sol se prolongam e se alternam de forma prodigiosa. Ora mais água, ora mais luz.. algumas vezes, luz e água a um só tempo, associando-se harmonicamente, na demonstração da capacidade a até mesmo da necessidade de uma convivência pacífica. Lição a ser aprendida pelos homens.
Devo estar na sacada da janela,neste amanhecer do mês mais bonito do ano. A jardineira, que emoldura e embeleza a fachada do apartamento onde moro, está linda, na exuberância do fundo verde que sobressai e se mistura às margaridas multicores, respingadas de orvalho e banhadas por raios solares. “Bom dia para nascer”, diria, como de fato disse Otto Lara Resende, naquele primeiro de maio de 1991, estreando um certo período de contribuição à “Folha de São Paulo”, através de suas inesquecíveis crônicas.
Mês de Maria. Eslas são: da Paz, de Lourdes, Madalena, Regina e de Jesus. Nasceram e datas diferentes, mas minha mãe,na sua religiosidade, desejou homenagear aSantíssima Virgem, de quem, na pia batismal, dela herdou o nome: Conceição de Maria. Jácom seis Marias na vida, não me contive e fui buscar, para me acompanhar, uma outra, Paula Maria. E veio então, dessa junção, Maria do Socorro. Mais Marias gostaria de ver, ter e amar, na simbologia da fé mistério da chegada de Cristo. Mário, (masculino de Maria?) em 1950, dia 12, saiu do ventre materno para o carinho dos seus irmãos. Naquela altura, homens, já contávamos, com ele, seis. “Bom dia para nascer”, Mário, colocado que foste no mundo para a missão de cuidar da vida de dois seres em um só, ambos muitas vezes duas Maria também!
As águas vão continuar caindo, embora com menor intensidade. Ainda assim, ameaçam molhar as caudas dos vestidos das noivas, sempre numerosas na celebração do matrimônio, nesta época. E as flores, belas e abundantes, enfeitam as cerimônias, dando-lhes graça e perfume que se juntam aos mesmos dons bem semelhantes aos que possuem os próprios jovens nubentes. Não há igreja disponível. Uma sequer.todas contratadas com bastante antecedência. Pintados e adornados os templos acolhem casadoiros, num ambiente de paz e música suave, onde são feitas promessas e juras e união, enquanto vida cada um tiver.
No próximo domingo, oito, “dia das mães”. A minha, pelo Pai foi chamada há vinte anos. Deixou uma saudade imensa. Ultimamente, é comum em mim a vontade de chorar. Por incrível que possa ser, na idade mais madura,dela sinto uma falta impreenchível. Outrora parecia menor. Bem, esse é um caso pessoal. Agora, compartilho da alegria, na festa que se promove em honra a todas as mães. Aos mais novos que eu, é bom recordar: as lembranças maternais são demenor valia. Maior significado tem o afeto e o carinho, demonstrados permanentemente, como expressão de agradecimento e reconhecimento.
E o mês de maio vai seguindo, com novenas e trezenas intercaladas e atravessando as datas mais importantes. Quando estudante, sem saber do motivo, não pertenci à Congregação Mariana. Nas “Cruzadas” sim, fiz carreira. Usei faixas amarelas e todos os tamanhos e larguras, contendo cada uma o sinal da graduação de quem recebia. Mas o que ansiava, realmente,era exibir no pescoço a fita azul dos “Filhos de Maria”. Deixei o Colégio marista na metade da terceira série ginasial, sem ter alcançado esta minha pretensão. A propósito de datas, treze foi a escolhida, em 1917,salvo engano, para Nossa Senhora aparecer aos três pastoresde Fátima, em Portugal. Tive o privilégio de me encontrar na terra lusa, por ocasião do cinqüentenário da aparição, quando se fez presente o papa Pio XII. Foi emocionante.
Abril já se despediu. Com pizza na CPI do Orçamento e desonesto espírito de corpo. Fernando Henrique Cardoso, ao lado de Luiz Eduardo Magalhães e Fiúza, nãovai a lugar nenhum. Bem, deixei para o fim, deliberadamente, a lembrança do Dia do Trabalho.como diria Otto lara Resende. “Bom dia para começar. Ou recomeçar”.