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                                                                                                            30.01.94

                                                                     Carlos Gaspar*

O senador José Paulo Bisol, acirrado e intransigente defensor da moralidade pública,mais uma vez levantou a voz. Desta feita para pedir a extinção da Sudene. Revoltaocom um suposto ou possível esquema de corrupção existente neste órgão, viu como solução definitiva o fechamento de suas portas. O encerramento de suas atividades. Dada a credibilidade que possui, deve estar ecoando pelo Brasil inteiro a palavra do ilustre representante gaúcho.

Meditando sobre o assunto, cheguei logo à evidência de que, certamente, o Dr. Bisol não conhece o Brasil. E a prova é sua total ignorância acerca das ações benéficas que a Sudene vem desenvolvendo na região mais carente doterritório nacional. Para esse mister, do erário da União tem saído inexpressivas quantias, dentro de uma análise baseada em custo/benefício, e, principalmente,se compararmos com os incontáveis bilhões de dólares empregados na região Sul. O desaparecimento da Sudene significaria mais miséria na terra dos já miseráveis pela própria natureza. Entendo não ser este o remédio adequado, e sim a investigação urgente e profunda, com punição para os transgressores da lei e da ética. Tal como ocorreu com o Congresso Nacional, ou está ocorrendo. E ninguém pensou em acabar com o Poder Legislativo. Ainda assim,com tantas mazelas, ele continua sendo o melhor dos males da democracia.

O deputado Nelson Jobim, dedicado por completo aos trabalhos revisionais da Constituição, vem dando os rumos das alterações a serem introduzidas. Dentre elas está a reeleição de presidente da República, governadores e prefeitos, com aagravante do não afastamento dos titulares dos seus respectivos cargos. Depreende-se daí, ser factível que, lá pelas plagas do competente parlamentar, se viva uma circunstância política diferente da experimentada na outra banda da Nação. Para os lados de cá, a partir da região Central e até o extremo Norte brasileiro, a realidade é outra. Aqui prevalece o caciquismo, o medo, o terror, a ameaça, a pressão, exercidos por quem detém o Poder, para manter-se, de alguma forma, nele. O paternalismo com o dinheiro público é outro filãoexplorado, na exploração do voto de uma população analfabeta de consciência. Pelo visto, também o jurista e politico Nelson Jobim não conhece o Brasil.precisa abrir os livros e estudá-lo, ou tomar um transporte para ver de perto e sentir na pele o drama de cidadania em que vegetam seus irmãos menos bafejados pela sorte ou pelas intempéries. Ou por ambas.

Na quarta-feira passada, recebi na Associação Comercial uma comissão de membros da “Ação da cidadania contra a fome, a miséria e pela vida”. A tal campanha em que se notabilizou, a nível nacional, a figura do sociólogo Betinho. Ele mesmo, o próprio espelho a fome. Este movimento, a meu ver, tem um vaor singular, que é o de despertar a sociedade organizada, para o que de fato anda acontecendo de danoso, criminoso, pelo mau uso edesvio ds verbas orçamentárias. Portanto, a fome e a miséria não são somente uma desgraça em si, mas uma conseqüência da postura e das prioridades pessoais, bem como da manipulação perversa da máquina estatal.

Como não poderia deixar de ser, na oportunidade, discutiu-se um pouco o Maranhão. E aí então ficou patenteado o equívoco de todos, no que diz respeito a alguns aspectos sociais do Estado. Para se ter uma idéia aproximada das condições críticas vigentes, os visitantes transmitiram informações estarrecedoras. Em São Luís, por exemplo, quase cinqüenta mil famílias subsistem em estado de indigência. A nível de Maranhão o número alcança a casa das quinhentas mil famílias. E o pior é que absolutamente nada tem sido feito para evitar-se esta situação absolutamente degradante. Estes dados vêm comprovar, pela surpresacom que foram constatados, que nãose conhece o Maranhão. O que se sabe éescasso e insuficiente para avaliar a implementação das políticas governamentais. Na verdade só se sabe mesmo o que é objeto dos programas dirigios, produzidos e divulgados através da mídia eletrônica, com o intuito de iludir as pessoas de boa fé. Apresentam o que foi realizado, usando grandes efeitos visuais e sensitivos em geral. No entanto, jamais mostram o que é verdadeiramente necessário fazer. Desta maneira, o exibido e propalado, ilusoriamente, fica parecendo até demais.

Ao recolher-me em casa, refleti exaustivamente e, na busca de explicações para a ignorância de Bisol o Jobim, conclui que, obviamente, muitos homens públicos de nossa terra, bem intencionados, podem estar padecendo de semelhante defeito. E como se avizinha a quadra eleitoral, torna-se indispensável a denúncia das calamidades, no julgamento de cada candidato e para a correta determinação do sufrágio de eleitor. Do voto do cidadão consciente.

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