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                                                 Carlos Gaspar*                                 20.10.96

Numa noite qualquer, dessas últimas semanas, a esmo vaguei pelo centro da cidade.percorri toda a JoãoLisboa e o Largo do Carmo. De costas para a igreja, vi sobradões enfileirados, entre a Ladeira do Comércio e o Beco da Pacotilha. O retrato vivo desta São Luís. Belíssimo cartão-postal, tanto pela arquitetura colonial, quanto pelos segredos ali guardados e impossíveis de serem desvendados.

Aquele casario, infelizmente é um corpo morto. Não fala. Nada diz. O que nele se passou, durante anos e anos, permanece escondido. Calculo as decisões tomadas dentro de cada prédio. Se fossem sabidas, talvez até o curso da história se revelasse bem diferente. Surpresas, alegrias, decepções e explicações seriam divulgadas. Mas, por quem, se eles nasceram mudos e seus primeiros moradores não mais existem ?

Segui o meu caminho, sempre com a idéia fixa nessas especulações. Aliás, nem tinha rumo determinado. Por vezes distraí-me, levado apenas pela sensação gostosa da liberdade em pder passear, andando com meus próprios pés. Havia deixado o automóvel na garagem do edifício onde moro.atravessei a ponto do São Francisco, subi pelo Santa Tereza e, quando me deparei, já estava na esquina da trua Grande, encostado numa das paredes do prédio em que outrora funcionou a CineRival. Era escuro.

Na imaginação, olhei para dentro daquele cinema, e em sua tela deslizavam os famosos seriados de “O Zorro”, “O Caveira”, “Durango Kid”, “Flash Gordon” e tantos outros. Podia então não ter sido uma casa de espetáculos, da melhor qualidade. Muito ao contrário, lá imperava a gritaria, no momento das cenas empolgantes, e até mesmo a anarquia.

Pois bem, retornei e peguei a rua de Nazaré. Estranhei o calçadão. Meus pés reagiram e aligeirei as pernas para depressa alcançar a Praça Benedito Leite, ilustre maranhense, cujos métodos políticos foram objetos de inúmeras polêmicas. E, agora bem recente, faz pouco, com a roupa nova, brilhosa, foi novamente motivo de calorosas discussões. Mas, isto não vem ao caso.

Segui na direção da esquina da rua da Estrela. Era quase um breu. Senti medo. Parecia estar rodeado por almas do outro mundo. Apressado, ouvia só o toc-toc do meu sapato, cortando o silêncio tétrico que me envolvia. Mas logo, dobrando à esquerda, ao divisar a iluminação forte em frente à Casa das Tulhas, tranquilizei-me. E bem mais quando percebi o aglomerado de pessoas à porta de um bar.

Mais uma vez repassei as folhas do livro da vida e escrito estavam em algumas delas, trechos desvendando aquele lugar. Confesso, nem dá para reproduzir. Meus olhos, com as pálpebras oscilando, se alternavam na visão entre o ontem e o hoje. Tudo mudou, por conta do progresso. Mas nenhuma das empresas, grandes para a época, naquele local estabelecidas, chegou à falência. Com o eixo dos negócios deslocado, ante o advento das malhas rodoviárias, substituindo a navegação fluvial, talvez haja prevalecido, no coração dos comerciantes de então, natural resistência, pois há anos e anos naquela zona fincaram raízes, e se mantiveram incrédulos com a nova dimensão dada à economia local.

Prossegui, ávido de relembranças que por certo encontraria, na leitura das páginas, as quais, vagarosamente, ia varando. Em seguida, dei com a rampa Campos Melo. A propósito deste nome, curioso, um dia perguntei a meu pai, que comigo se dirigia para a “Guarda do Tesouro”, o porquê daquela denominação ao logradouro. Ele, então, na ponta da língua, explicou-me tratar-se de um homem que havia sido presidente do Maranhão, no século passado. E, pelo que lhe informaram, tinha até ocupado o cargo de Ministro da Justiça, ainda no Império. Aprendi a lição e não mais me esqueci.

Foi naquelas imediações que se deu um caso interessante, e que me serviu para avaliar melhor a inteligência e a capacidade do homem do interior, acostumado nas idas e vindas de seu lugarejo de origem para a capital. Como tantos com quem convivi, era ele um barqueiro. De Bequimão ou Alcântara para cá, o caminho não tinha mistérios. Conhecia-o como as palmas das mãos. Içava a vela, punha o leme no rumo do destino e era só esperar pelo vento. Com a graça de Deus, todas as semanas, sem qualquer atropelo, fazia o mesmo percurso.

Na embarcação desse marinheiro prático, vinha de tudo. Babaçu, tucum, camarão, galinha, ovos e o que mais tivesse. Havia indícios, no entanto, de que o homenzinho, de estatura baixa, roupa de mescla e fala meio rouca, gostava de puxar uma ervazinha. E exatamente onde o barco atracava, para descarregar os gêneros trazidos, sempre fazia ronda um ou outro policial, com quem o marítimo mantinha boas relações de amizade, embora não fosse totalmente segredo o seu vício pelo tal fumo. A dificuldade estava em pegar o João Pompílio com a boca na botija.

De certa forma, um dos soldados, observando que o mestre Pompílio, ao desembarcar, carregava consigo um pequeno cofo, inquiriu-lhe sobre o conteúdo. E ele, cheio de si, confiante na sua espontaneidade burlesca, confessou ao seu interlocutor que se tratava de diamba. O guarda, incrédulo, nenhuma providência tomou, convencido de que aquela resposta era de brincadeira. Obviamente raciocinou que, se fosse mesmo diamba, o João Pompílio não confessaria. E saiu rindo da trama que, astuciosamente, montara e do logro aplicado ao policial.

Olhei para meu relógio e vi as horas avançadas. Quase meia-noite. Imediatamente peguei o itinerário de casa, conjecturando que, se fosse interpelado por alguém, sem dúvida me aproveitaria com o que aprendi do João Pompílio, para livrar-me de algum mal.             

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