Carlos Gaspar* 08.09.1991
Já passou o tempo da briga extrema entre o capital e o trabalho. As velhas teorias, privilegiando um ou outro, ruiram com o decorrer dos anos e a evidência dos acontecimentos nos dá a insofismável demonstração de que esses dois instrumentos propulsores do desenvolvimento de qualquer sociedade, nasceram gêmeos. Assim, quando forças estranhas entram nessa convivência fraterna terminam produzindo reflexos dolorosos no ambiente. Nunca é demais destacar como exemplo o que ocorreu com as repúblicas soviéticas, assim como é sempre bom lembrar as situações vexatórias e humilhantes da maioria dos povos africanos e latino-americanos. Em ambos os casos houve a prevalência abusiva do trabalho sobre o capital ou deste sobre aquele.
Ao repassarmos os anos que já se foram e mesmo os séculos, verificamos quão difícil tem sido para o homem, ambicioso e sedento de riqueza e mando, entender que o trabalho é um bem precioso e dignificante, um dom da natureza humana, a contribuição maior ao progresso da ciência e da tecnologia, para benefício da coletividade. Daí os grandes conflitos e as grandes lutas entre trabalhadores e patrões, que chegaram a gerar questões sociais sem precedentes, transformando-se, muitas vezes, em revoluções e guerras civis. Contudo, o entendimento e as conquistas evoluem com o tempo, até que ninguém mais duvide de que, inseparáveis, capital e trabalho, não podem andar por caminhos opostos.
Uma das grandes conquistas dos trabalhadores foi, sem dúvida alguma, a criação jurídica do salário mínimo. Pelo que se tem noticia, surgiu ele no final do século XIX, na Nova Zelândia, na Austrália e nos Estados Unidos, com vistas a impedir a exploração desumana a trabalhadores marginais e desunidos, a quem era pago menos que o necessário para sua subsistência pessoal. No Brasil, o instituto aparece na Constituição de 1934, mas as primeiras tabelas entraram em vigor a partir de 02 de julho de 1940. Eram valores diferenciados por Estado ou região, salvo engano. De lá para cá uma série de leis e decretos se sucedem, fixando critérios e números, que quase nunca correspondem à realidade, travando-se entre os poderes Executivo e Legislativo uma batalha sem prescedentes na nossa história. Agora mesmo, o Congresso Nacional vem de votar uma nova lei salarial, e nela fixou, contra a vontade do Poder Executivo, o salário mínimo em Cr$42.000,00, a partir deste mês, que, é bom frisar, mesmo assim ainda constitui um flagrante desrespeito à norma constitucional vigente sobre o assunto.
Por incrível que possa parecer aos mais apaixonados, a classe patronal, além de estar de pleno acordo com a decisão do Congresso, no que diz respeito à política salarial em geral, parece não concordar com os vetos impostos pelo presidente da República ao texto legal, remetido para sanção. A grande verdade é que há um entendimento generalizado, e isto faz parte da consciência profissional dos empresários, de que os salários todos se encontram achatados, abaixo da realidade, imcompatíveis com o atendimento às necessidades básicas do trabalhador. A fome, a miséria e a criminalidade têm crescido proporcionalmente à queda da remuneração do empregado. E esta situação vem sendo criada abusivamente pelos governos, sob o pretexto de que o salário é causador da inflação. Não entedem ou não querem eles compreender que as remunerações condignas é que geram o consumo, estimulam a produção, criam mais empregos e acrescentam maiores valores em forma de imposto aos cofres públicos. Só mesmo neste Brasil, onde a classe dominante e aproveitadora persiste, em manter a população em contínuo estado de miséria e ignorância totais, para dela usufruir, como tem feito ao longo dos anos, é que o causador da inflação é o salário. Aliás, se asim de fato fosse, acho que já não haveria nem inflação, ou ela estaria abaixo de zero, tais os vigentes valores remuneratórios do trabalho.
Alguns governadores, entre os quais se inclui o do Maranhão reagiram quanto ao valor de Cr$42.000,00, sob a alegação de que terão um crescimento muito grande em suas folhas de pagamento, comprometendo, assim, a receita líquida do Estado. Falaram até na volta do salário mínimo regional, coisa ultrapassada e até vedada pela Constituição Federal (Art. 7º, IV), mas que se tivesse de vigir novamente deveria ser para fazer justiça às regiões onde o custo de vida é mais caro, em relação as demais, como é o caso do Maranhão. Estou convicto de que essa manifestação do dr. Edison Lobão por certo ocorreu em clima de muita preocupação, pela consciência que ele tem dos demais problemas financeiros do Estado. Contudo, embora não seja o mal maior, algo deve andar errado nas folhas de pagamento. Nelas podem ter poucos ganhando demais e até sem trabalhar ou muitos recebendo indevidamente. Enquanto isso com certeza há um cem número de funcionários corretos e cumpridores de seus deveres, penalizados com baixima remuneração, que lhes é obrigado até a usar do instrumento da greve, com pressão reinvindicatória, coisa que quase não se vê nas empresas privadas e que tem sido, um péssimo exemplo legado pelos administradores públicos. Comenta-se, pelos quatro cantos da cidade, que há setenta mil servidores no Estado, mas que o númeo de contra-cheques é de cem mil. Talvez o engano esteja por aí e o governador não deve ficar preoculpado, porque sei que ele já começou a tomar as medidas cabíveis, iniciando o censo do funcionalismo público estadual, naturalmente com o objetivo de promover a anunciada reforma administrativa com a implantação de uma nova estrutura de cargos e salários, de que se espera poucos cargos e salários condignos. Além do mais, a receita do Estado deve também estar comprometida com os equilibrios mensais que as empresas do governo apresentam, sendo quase todas elas supridas pelos cofres do tesouro. E mais uma série de outros cânceres que consomem diariamente os recursos públicos. Mas de tudo, o que nos conforta é que, já tendo tomado conhecimento de sobra, o governador Lobão não exitará em adotar as necessárias providências, até porque a questionave dívida do Maranhão terá de ser paga, mas sem o sacrificio do funcionalismo mal remunerado e do povo espoliado que dela não usufruiram. Mas isto é outro assunto.