Carlos Gaspar* 06.06.1993
Nos idos de 1974, por decisão do destino, fixei residência na cidade de Belém. Ali, como era natural, e até na tentativa de fugir da solidão, procurei achegar-me às pessoas ligadas ao Maranhão. Foi dessa forma que tive o privilégio de conhecer um ilustre conterrâneo, estabelecendo com ele agradável convivência. Trata-se do saudoso general Tasso Moraes Rego Serra, culto, estudioso, arguto e detentor de respeitável biblioteca, de quem assiduamente muito ouvi, desta província e do Brasil. A diferença de idade a nos separar determinou, na ocasião, o acentuamento da minha timidez, não me ensejando a ousadia de lhe solicitar, mesmo a título de empréstimo, qualquer de seus inestimáveis livros. Contemplava-os nas estantes, seqüenciados, despertando-me o desejo e a esperança de um dia poder desfrutá-los.
As circunstâncias da vida me conduziram de regresso a São Luís, logo em seguida. Trouxe comigo a lembrança persistente das lições por mim recebidas e a admiração pela inteligência e pelo preparo intelectual do vestuto militar, ex-professor de várias gerações. Vez por outra, na reflexão da minha permanência na capital do Pará, de duração em redor de doze meses, vejo-me sentado na varanda da sua modesta moradia, próxima à igreja de Nossa Senhora de Nazaré, a escutar, do esmerado mestre paciente e atentamente, os relatos, as explicações e os ensinamentos sobre acontecimentos, pessoas e coisas deste nosso Estado. Também, ao fundo do ambiente, completando-lhe o ar de sobriedade, os cobiçados compêndios ali se achavam, na condição de confidentes inseparáveis, colaboradores e testemunhas da competência do meu interlocutor. Nem os acessos da asma ou da enfisema, debilitando-lhe a saúde, ofuscavam a expressão de crítica, exultação, ou queixume do talentoso general, então recolhido ao ostracismo, em razão da avançada idade.
A Associação Comercial do Maranhão tem me proporcionado, enquanto seu presidente, diversas alegrias. Chego ao ponto de até esquecer os obstáculos e desilusões, as invejas e perseguições, as incompreensões e decepções que, no decorrer da minha gestão, se afiguram com relativa freqüência. No entanto, jamais me irei abater, pois estou imbuído do convencimento de que o apoio incondicional e a concorrência da maioria dos meus companheiros nunca haverão de me faltar. A casa de Martinus Hoyer, honrando as tradições deste insígne dinamarquês de nascimento e maranhanse de coração, orgulhosamente, nesta quadra difícil da sociedade brasileira, cumpre com o seu dever. Emergindo de uma conjuntura frágil, indecisa e receosa, parcialmente originária do período de exceção, readquire a maturidade política e se impõe no conceito público, através de posicionamentos sérios e independentes.
Ora, ao lado dessa pregação de cunho filosófico, sem descuidar o material, preocupei-me e insisto em me inquietar com o aspecto cultural da Casa. São quase três anos de administração e ainda me mantenho a mexer e remexer papéis, arquivos, documentos e livros, reparando, descartando, organizando e tudo preservando da destruição, dentro do possível. As agruras financeiras, infelizmente, impedem a entidade de restaurar, de modo mais dinâmico, esse seu valiosíssimo acervo. Contudo, é um desafio do qual também desejo sair vencedor, visto contar com a habilidade e o despreendimento de zelosos funcionários, na labuta incessante com as “velharias” abandonadas. Em alguns instantes, já experimento uma confortante sensação, ao me dar, na Biblioteca Clodoaldo Cardoso, procedendo ao balanço de tanto ali realizado. É certo, há lacunas, quase impossíveis de serem preenchidas, fruto indesejado do desconhecimento ou da omissão no controle de obras raras, hoje desaparecidas das prateleiras. Consolo-me, não obstante, com a idéia de que se estas invulgares coleções, em sua totalidade, não reencontrarem o seu local primitivo, pelo menos possam estar em ótimas companhias e continuem a servir para embasarem as investigações de inúmeros intelectuais que enobrecem o torrão natal.
Bem a propósito, chegou a mim, entregue pelo estimado amigo Benedito Buzar, um precioso exemplar do “Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão”, de autoria de César Augusto Marques. Pequena importância teria, não fosse ele uma edição de 1870, da Tipografia do Frias, na Rua da Palma n°. 06. Escassos são os restantes desta tiragem. A nossa Associação Comercial, havia longos anos, encontrava-se desfalcada desse seu incomum tratado, o qual retorna, em momento auspicioso, para reintegrar o seu patrimônio cultural, graças ao Benedito Buzar que, na sua faina de pesquisador, se deparou com ele, maltratado, em uma biblioteca particular, sem que o dono dela também tivesse culpa. E tanto é verdade que este concordou com o argumento do Buzar, no sentido de fazer voltar à biblioteca da Associação Comercial do Maranhão, um livro que efetivamente lhe pertence, desde 1941, conforme consta de um oferecimento nele aposto, e página interna, além dos carimbos da própria entidade.
Ao agradecer, ao Benedito Buzar, o relevante trabalho que presta à instituição que dirijo, recordei-me, imediatamente, de semelhante volume que possuo, curiosamente de igual data, mas de tamanho mais alongado. Num e noutro, tudo parecido. Apenas o meu, acrescido de alguns centímetros no comprimento. Tenho por ele um apego especial. Adquiri-o, recentemente, no arremate com outros, dos familiares do mestre Tasso Serra que, após a sua morte, resolveram vender parte da biblioteca deixada. Consegui pequeno número de obras do saldo disponível, quase toda versando sobre o Maranhão, mas que me vieram adicionadas de um enorme valor afetivo. Talvez por isso, quando desembrulhei o pacote amarelo que me passara Benedito Buzar, e ao constatar o seu conteúdo, não haja contido as emoções, com a sensação de, nitidamente, descobrir-me, a um só tempo, na sala da residência do general, e na biblioteca, agora mais recomposta, da Associação Comercial do Maranhão.