Carlos Gaspar* 09.10.94
Tenho o costume de me apoiar em datas, para me situar nos fatos, nos episódios, nas consagrações e nas comemorações em geral. A mais próxima delas, de relevante significado, é doze de outubro, quarta-feira vindoura.este dia,escolhido para prestar homenagem à padroeira do país, Nossa Senhora Aparecida, e também às crianças, é feriado nacional.
Possuo uma natural aversão por dias inúteis. Já revelei meu ponto de vista em outra oportunidade como esta. Agrava-se minha reação quando percebo que, no mês, vamos ter um ou dois feriados, ou então três. E mais me aborreço com a notícia de que o governador ou a prefeita decretou, por acréscimo, com razão ou sem ela, mais algum ponto facultativo. Este expediente tem sido empregado de modo exorbitante, impróprio ou inconveniente, de uma certa fase para cá e tal procedimento constitui burla à legislação vigente, pois não passa de uma maneira de se criar mais feriados.
Não desejo me desviar do que pretendo escrever. Apenas fiz questão de enfatizar esta minha velha opinião, para mostrar que não sou tão intransigente como possa parecer. Acho de justiça ser destinado um dia para homenagear todas as crianças. Afinal de contas, quem as valorizou com devida ênfase esabedoria foi o próprio Jesus Cristo, ao dizer, conforme nos contou São Marcos no seu relato evangélico: “deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o reino dos céus”. E de lá para cá, inúmeras são as personalidades, das mais variadas atividades, que têm se reportado com carinho e respeito às crianças. Enfim, elas simbolizam a inocência e a esperança, duas virtudes admiráveis. A primeira normalmente desaparece com relativa facilidade, até porque há quem, intencionalmente, contribua para isso. A outra, a esperança, não. Embora seja inerente à criança, não lhe pertence. Termina sendo dos outros. Por esse motivo, ninguém lh’a a tira. Assim o meu filho, neto ou sobrinho é a minha esperança. Exprime o meu sonho, o meu futuro, o meu amanhã. Daí nunca se poder destruir a esperança, como é feito com a inocência da criança, vez que esta é a própria esperança. Com ela se confunde.
Esse sentimento, esse bendito egoísmo, diria mesmo, faz com que a criança seja respeitada. É sábia a afirmação de que casa sem meninos ou meninas é casa triste, pois eles são a expressão da alegria, da vida, do sorriso, da esperança, finalmente. Como sou, por natureza, graças a Deus, um otimista, jamais abominarei o dia preferido para reverenciar o que háde mais cândido sobre a face da terra. Até conjecturo o contentamento de muitas crianças, ao receberem uma atenção especial de seus pais, professores, parentes e amigos da família.
Pois bem, em agosto último, lá pelo término do mês, estive rapidamente em São Paulo. A esta capital fui com o objetivo único de ver a “Bienal do livro” e, dentro do possível, adquirir o que mais se harmonizasse com o meu gosto. Dispunha de um domingo apenas ou, para ser mais preciso, de uma tarde de sábado também. O tempo era escasso, mas, como já tenho hábito, procurei multiplicá-lo, utilizando-o racionalmente, para dele tirar o melhor rendimento. Foi então, com esse propósito, que percorri a feira inteirinha, metodicamente, com a devida calma, olhando, examinando e perguntando sobre os recentes lançamentos, sem desprezar os anteriores, alguns deles até desconhecidos de mim.
Ao visitar um dos stands de uma das editoras, defrontei-me com uma pilha de livros de autoria do nosso Josué Montello. Até aí nada de mais. Afinal, por que surpreender-me com publicações novas desse grande escritor maranhense e brasileiro? De fato, estava até estranhando nãoter tido informações de que o presidente da Academia Brasileira de Letras viria oferecer ao público mais uma de suas belas produções. O que, na verdade, me causou admiração, foi, de logo, otítulo do livro “O carrasco que era santo” e depois que o folheei rapidamente, o tema abordado. Desta feita voltou-se o autor de “Os tambores de São Luís” para a literatura infanto-juvenil, que não é uma de suas especialidades. Ou não era. Mas, com esse livro, vem ele demonstrar, de sua parte, como todas as demais pessoas, o afeto que nutre pelas crianças, ao imaginar a tia Bilu, um misto na realidade e fantasia, “baixinha, de olhos muito vivos, voz suave, bem vestida e aind bonita”. Inspirou-se numa fotografia antiga em que aparece, com uma boneca na mão, contano uma história para suas duas filhas, ainda pequenas.
Li olivro de um fôlego só, ontem ànoite. Recordei-me longamente, da minha memorável infância, com tias Bilus e pretas velhas, amigas da família,a inventarem fantasiosas estórias. Naquela época, não existia “dia da criança”, porque em todos os dias havia, sem faltar, um momento reservado para os pequeninos. E eu, na data consagrada às crianças, se ainda pudesse voltar aos meus primeiros anos, iria ficr extasiado, ao ouvir alguém, lendo para mim o relato sobre “O Carrasco que era santo”. Agora, que jásei de tudo, tenho vontade de explicar a aparente incoerência do título e os fascinantes personagens como Miudinho, frei Ludgero e irmão Libório. São inesquecíveis e conseguiram despertar o meu lado infantil que, felizmente, as décadas não conseguiram apagar.
Porém, não vou fazê-lo,para que cada um mate a sua curiosidade, deleitando-se aom as páginas que têm cheiro e sabor de inocência e esperança. Cheiro e sabor de criança, melhor dizendo.