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Carlos Gaspar*                     29.09.1991

De algunsanos para cá, grassou pelo país um dos piores males de que se tem notícia. Remédio para ele não falta,  existe até em abundância e, se aplicado, evitaria a  propagação da epidemia. Outro dia mesmo, num dos seus programas humorísticos, Chico Anísio, jocoso como sempre,  oferecia, em forma de pílula, a medicação para a doença.

Pílula contra a corrupção, já que não se aplicam as  inúmeras leis existentes para classificar e punir este delito. Do mesmo modo, o menestrel Juca Chaves,  criticando o estado de degeneração moral e a impunidade, vigentes e de  mãos dadas no país inteiro, também em forma hilariante disse que no Brasil, a cada minuto, morre uma pessoa e  nascem dois ladrões.

Como se vê, o assunto, de grande seriedade em qualquer outra nação, vai,  aqui, alcançando as raias da galhofa. E assim a corrupção vai   penetrando, lamentavelmente, na cultura nacional,  sem que qualquer providência seja tomada. A tal ponto chega  a evolução desta prática que, em dado momento, ela assume até o outro significado.  Lobby é um deles, o mais comum. Tráfico de  influência, outro. E assim sucessivamente.

Ultimamente inúmeros e vultosos têm sido os escândalos de corrupção na República, em geral. Após a extinção da censura muita coisa veio à tona, umas verdadeiras e outras  frutos da imaginação exagerada e até  fantasiosa ou, então, o juízo incorreto e  da dedução ilógica de quem por falta de hábito, ainda não aprendeu a usar a liberdade de imprensa. As acusações mais comum envolvem a administração pública e a classe política em geral, quer seja na área legislativa, executiva e às  vezes até mesmo na judiciária. Para confirmar esta infeliz  assertiva, basta lembrar que são constantes as acusações de pessoas ligadas ao próprio Presidente da República estão envolvidas em desvios de verbas, malversação de recursos públicos, favorecimentos ilícitos, serviços e obras sem licitações e uma série de práticas criminosas. Também nos Estados da federação, bem como nas prefeituras municipais, o quadro é o  mesmo, com raríssimas e honrosas exceções. Os fatos são  evidentes e os comentários estão na boca  do povo.

Com isso, o  país está na bancarrota e os cidadãos sofrendo cada vez mais, quase sem esperanças. O próprio  “entendimento nacional” começou a deixar de ser viável a partir do instante em que  seu proponente se recusava a admitir publicamente o estado de degeneração moral em que se encontra sua administração. Aliás, tudo indica que a crise do país é somente moral, ficando as reformas em discussão em um segundo plano, se de fato todos pensassem em melhores dias para o Brasil.

Apesar de tudo isso, há um entendimento, entre os que fazem opinião em São Luís, bem como no  conceito geral da população, de  que  a administração implantada nesta cidade, sob a orientação do prefeito Jackson Lago, constitui um caso à parte, pelo seu comportamento irrepreensivel no trato da coisa pública. Podem acusá-lo de intransigente e até radical nos seus conceitos filosóficos, podem falar de sua lentidão nas decisões políticas, mas jamais se houve umcomentário, um cochicho sequer, quanto à  lisura do  comportamento do Prefeito de São  Luís. Falhas  na  administração municipal, há bastante  e o próprio  Jackson não as esconde, até porque, tendo a prefeitura  sido administrada, quase sempre, como uma dependência do Palácio dos Leões, ficando o seu titular a depender das maiores ou menores graças dos governadores, acumulou, ao longo do  tempo, a  mais crônica desorganização de que se tem noticia, não sendo possível,  em tão pouco tempo,  tudo repor nos seus devidos lugares.  Isto sem falar de  quando a  chefia da municipalidade era ocupada por quem se preocupava  tão  somente com o enriquecimento ilícito e as obras eleitoreiras que não resistiram ao tempo e nem beneficiaram a cidade e sua população, deixando  ainda a prefeitura endividada por muitos anos.

São Luís, para orgulho de seus habitantes e do país  inteiro, tem o privilégio – honradez passou a ser  privilégio, na atual conjuntura nacional -  de possuir no seu comando  um homem correto, de bem, decente, digno, íntegro. Um homem de mãos limpas.

Temos, por isso, o dever  de ajudá-lo, de sentar à sua mesa, desarmados de qualquer preconceito político-partidário, para auxiliálo a encontrar soluções aos diversos problemas que nos aflingem. Nada de procurar denegrí-lo, tentando  mostrar uma  imagem irreal e que não condiz, por isso mesmo, com o trabalho dedicado e honesto que vem desenvolvendo e que tem merecido os aplausos dos mais diversos  segmentos de nossa  comunidade. Por isso este deveria ter  sido  o critério para discutir e votar o projeto  de lei que tratava da reoorganização dos transportes coletivos. Nisto não ia nenhum indicador ou sugestão do critério da aprovação passiva, até porque, segundo comentários e explicações de pessoas sensatas e  conhecedoras do assunto, se o projeto de  lei em questão era válido e até  essencial, estava também a merecer alguns reparos ou emendas. Acrescente-se a isso, o sagrado direito dos representantes do povo no Poder Legislativo, de questionarem, tendo em vista o benefício coletivo, as mensagens que lhes são remetidas.

O certo é  que a população aguardava com ansiedade e acreditava que a  condução definitiva deste assunto seria efetuada num clima de colaboração entre os poderes constituídos e de dentro dos  modernos conceitos do bem  estar social, que devem prevalecer acima de quaisquer outros interesses.

Apesar  de tudo, vamos todos ajudar nossa cidade, colaborando com aqueles que abominaram as práticas superadas e egoístas. São Luís, assim, tem jeito, com trabalho e honestidade.

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