Carlos Gaspar* 10.11.1991
Participei, se não estou enganado, em meados do ano passado, em um encontro de economistas, de uma sessão de debates, onde foi abordado o problema do custo do dinheiro. Na ocasião, lembro-me bem, demostrei preocupação quanto à política de taxas excessivamente positivas, inibidoras, a meu ver, do desenvolvimento econômico do país a pretexto de conter-se a inflação, através da aplicação de um ônus financeiro insuportável, com toda a certeza a diminuição a produção viria, já afirmava eu, naquela oportunidade. O resultado da safra agrícola, decepcionante, é o primeiro exemplo a citar.
Desse período para cá, no que diz respeito aos rumos na busca da estabilidade econômica, o governo claudicou sempre, não conseguindo, até agora, imprimir uma diretriz confiável. Economistas, trabalhadores, empresários, políticos e a comunidade em geral viveram situações as mais diversas, com transtornos irremediáveis em suas atividades. No final das contas, atropelada por muitos planos e insucessos, veio o empobrecimento para a sociedade como um todo, incluindo-se aqui até grandes empresas, muitas delas levadas à beira da insolvência definitiva. O país involuiu no seu Produto Interno Bruto, o que é extremamente grave.
Novamente, agora, retorna com mais rigor a aplicação do método do perigosíssimo para tentar domar a inflação, com a elevação excessiva das taxas de juros, muito acima da desvalorização da moeda, exageradamente positiva ou real, promovida pelo próprio governo. Este instrumento, com certeza absoluta, beneficiará somente a uns poucos. A grande maioria perde. O efeito imediato, que é a contenção do consumo por toda a população, na verdade, apenas aparentemente detem a explosão inflacionária, uma vez que dos produtos se afasta, de modo compulsório, a maior parte dos seus compradores e, por isso, num primeiro momento, eles tendem a subir pouco. Ao cidadão, que efetuava suas compras à prestação, em condições que lhe permitiam saldar os compromissos, é tirado o direito de acesso aos bens, muitas vezes necessários à sua sobrevivência digna, exclusivamente pela manipulação do ônus que recai sobre o financiamento. Estabelece-se um verdadeiro impasse entre a produção e o consumo, em decorrência de forças intervenientes estranhas ao processo. E aí, então, vem outra consequência grave, que é o sucateamento do parque produtivo. Se não há quem compre, do mesmo modo, não há porque produzir. A falta de mercado consumidor e o custo excessivo do dinheiro termina gerando a impossibilidade de investimento na modernização das empresas, que passam a perder, dia após dia sua capacidade competitiva. O capital privado nacional entra em crise aguda.
No entanto, o bem maior de uma sociedade não é o capital mas os seus membros. As pessoas, como tais, constituem, assim, o valor mais expressivo de qualquer país. E são exatamente elas que mais perdem em uma economia como a nossa. O dinheiro aplicado nos bancos, nada produz, a não ser somente o déficit público e, consequentemente, a realimentação da inflação. O governo é quase o único tomador de empréstimos, a custos altíssimos, esvaindo a arrecadação já injusta e insuportável e, possivelmente, enriquecendo uma minoria de previlegiados. Paralelamente, se sucedem as concordatas e falências, envolvendo empresas de todos os níveis, das micro às mais importantes, que não conseguem resistir ao vendaval dos custos financeiros, estes já bem maiores do que as próprias folhas de salários do seu pessoal. Aliás, neste processo, elas tendem a diminuir cada vez mais. As quedas de consumo estimuladas pela politica adotada provocarão, sem sombra de dúvida, baixas maiores no numero de carteiras dos trabalhadores, o que é lamentável. As demissões, ao contrário do que pensa muita gente mal informada ou despreparada, não são feitas por simples prazer, até porque tem um custo elevadissimo e duplo. Primeiro, quando a empresa dá o aviso prévio ao seu empregado; segundo, quando, tempos depois, volta a contratar, ocasião em que torna a investir na formação profissional do seu auxiliar. A estabilidade ou não rotatividade do quadro de empregados constitui lucro para ambas as partes empregados e empregador-, enquanto as recisões de contrato de trabalho, em tais circunstâncias, se traduzem em prejuízo para todos. O professor Ives Gandra da Silva Martins, em carta aberta que dirigiu à Presidência da República, foi muito feliz quando disse que “quando uma empresa demite, o faz como o médico, que amputa um membro do corpo gangrenado para que a gangrena não atinja todo o paciente”.
Este quadro, do qual somos todos personagens, não podem ficar estático. O próprio governo, sentindo a queda da sua receita tributária, busca a indexação dos impostos. Por que, então, não melhor, a receita do trabalhador, procurando indexar do mesmo modo, seu salário, já que os preços estão sem controle? Por que tal como fez com o ouro e o dólar do mercado paralelo, o governo, também não deixa que as taxas de juros encontram seu patamar, ao sabor da determinação do próprio mercado? A final de contas, não estamos praticando a economia de livre mercado? Na verdade, isto significa a volta de indexação de toda a economia, situação pela qual já passamos e mecanismo por onde chegamos a atingir a casa dos 80% de inflação mensal, e que foi a razão do nefasto Plano Collor I. Depois de tanto tempo e muito desgaste e mais combalido, o país volta à estaca zero.